Falta pouco mais de um mês para a estreia de Mariana Mortágua em eleições legislativas desde que sucedeu a Catarina Martins na liderança do Bloco de Esquerda e sucedem-se as entrevistas, desta vez à CNN Portugal, emitida ontem à noite (1 de fevereiro). Com especial atenção ao relacionamento com o PS, agora conduzido por Pedro Nuno Santos, e uma possível reedição da "geringonça" ou de um acordo noutros moldes.

Segundo afirmou Mortágua, há disponibilidade para um acordo, mas "antes das eleições" porque "os eleitores têm direito a saber, quando vão votar, o que é que podem esperar". E para que seja possível esse entendimento, há bandeiras de que o BE não abdica, nomeadamente as crises na Habitação e na Saúde que são resultado do "desastre da maioria absoluta".

No que diz respeito à Saúde, Mortágua disse não ter "preconceito" com o setor privado, até porque o Serviço Nacional de Saúde (SNS) já recorre ao privado e, "portanto, o sistema que temos já é um sistema em que o SNS encaminha para os privados uma série de exames, cirurgias".

Mas qual é o problema da necessidade de reencaminhamento para o privado? "Primeiro, sai muito mais caro, o sistema tende a ser muito mais caro sem garantir um melhor atendimento", declarou a bloquista.

Nesse sentido, exemplificou: "Mais de 80% dos cheques-cirurgia ficam por utilizar e pergunto porquê? A resposta é simples. As pessoas estão a ser acompanhadas pelo seu médico no público, confiam no público, não querem ser operadas num hospital privado do outro lado do país por uma equipa que não conhecem."

A percentagem indicada tem fundamento?

A medida foi criada em 2004 e está inscrita na Resolução do Conselho de Ministros n.º 79/2004. O programa "foi concebido com um carácter temporário para fornecer uma resposta rápida e eficiente às situações emergentes e críticas de utentes, dada a existência de longas listas de espera com vista a uma intervenção cirúrgica".

Relativamente ao vale-cirurgia, este é atribuído após "decorrido 75% do tempo de espera admissível predefinido sem que tenha sido marcada a cirurgia pelo hospital onde o processo do utente se encontrar ativo". Contudo, a percentagem de utilização é, de facto, reduzida.

Só em 2022, o Estado gastou mais de 43 milhões de euros com esta medida e mais de 45 milhões no ano anterior. No entanto, dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) disponibilizados ao jornal "Diário de Notícias", em abril de 2023, revelaram que dos 165.079 vales emitidos, só 21% foram aceites pelos utentes em 2022.

A percentagem de aceitação foi ligeiramente maior em 2021, mas, ainda assim, pouco expressiva. Nesse ano, dos 156.264 vales-cirurgia emitidos, só 23% foram utilizados.

Ou seja, em 2022 a recusa foi de 79% e em 2021 foi de 77%. Segundo a mesma fonte, em 2020 e 2019 o número de vales emitido "foi muito superior e a percentagem de aceitação muito menor".

Mortágua aponta para "mais de 80%" de recusas. Ainda que não seja totalmente rigoroso indicar que mais de 80% dos vales-cirurgia foram desperdiçados, a percentagem não difere muito da que se verificou em 2022. Assim, o Polígrafo classifica esta alegação como verdadeira.

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Avaliação do Polígrafo:

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