Em declarações aos jornalistas no final de uma missa ecuménica realizada ontem em Lisboa, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, enjeitou a hipótese de um retrocesso no desconfinamento (ou mesmo um novo período de confinamento), na medida em que - sublinhou - a média de mortos "é baixíssima, a média de doentes em cuidados intensivos é muito baixa e a média de internamentos é também perfeitamente aceitável".

Ainda assim reconheceu que há um número elevado de novos infetados, "o que já se sabia em relação às próximas semanas até o Rt [indicador de transmissão] descer consistentemente, produzindo então efeitos dentro de duas a três semanas".

"A vacinação está a subir. Com os que estão a ser vacinados acima dos 40, passando para os que os estão acima de 30, significa que em julho estaremos com mais cerca de um milhão de vacinados. (…) Se somarmos os infetados, boa parte deles imunizados, então teremos daqui a um mês um número muito significativo para 10 milhões de habitantes. Portanto, são agora uma ou duas semanas de números elevados, mas sem pressão grave no Serviço Nacional de Saúde, nem uma hipótese de recuo em termos de confinamentos e restrições generalizados", afirmou Rebelo de Sousa.

Estas alegações têm fundamento nos dados oficiais disponíveis?

Começando pela média de mortes por Covid-19, tem vindo a subir ligeiramente desde o ponto mínimo de 0,57 (média dos sete dias anteriores, calculada no portal "Our World In Data") entre os dias 1 e 2 de junho, até atingir 2,14 de média no dia 11 de junho.

Ora, apesar desta recente subida, o facto é que desde agosto de 2020 que não se registava uma média tão baixa de novas mortes por dia. Isto numa altura em que o número de novos casos de infeção tem vindo a aumentar nas últimas semanas e permanece num nível bastante mais elevado (entre o dobro e o triplo) do que no período homólogo de 2020.

Ou seja, a correlação entre o número de novos casos e o número de mortes estará a ser alterada mediante o avanço do processo de vacinação.

Aparentemente, o mesmo se aplica à correlação com o número de internamentos hospitalares por Covid-19. De acordo com o relatório de 12 de junho de 2021 (com dados referentes ao dia anterior) da Direção-Geral da Saúde (DGS) contabilizam-se atualmente 300 internados em todo o país, dos quais 77 em unidades de cuidados intensivos.

No pico de mortalidade da pandemia em Portugal (atingido nos dias 28 e 31 de janeiro de 2021, com 303 novas mortes registadas), por exemplo, contabilizaram-se entre 6.565 e 6.694 internados, dos quais entre 782 e 858 em unidades de cuidados intensivos.

Retornando à correlação com o número de novos casos diários, em busca de outra perspetiva de comparação. Desde o dia 6 de março de 2021 (com 1.007 registados) que não se ultrapassa a barreira dos 1.000 novos casos diários de infeção em Portugal. A tendência de aumento das últimas semanas levou a uma reaproximação dessa barreira, tendo já atingido 910 novos casos no dia 10 de junho, o número mais alto desde o início de março.

No relatório de 6 de março, precisamente, contabilizaram-se 1.416 pessoas internadas com Covid-19, das quais 363 em unidades de cuidados intensivos. Ou seja, também a partir desta perspetiva, a alegação de Rebelo de Sousa - "a média de doentes em cuidados intensivos é muito baixa e a média de internamentos é também perfeitamente aceitável" - parece ter fundamento.

Importa porém ressalvar a tendência de subida dos números que se verifica presentemente, aliada ao facto de o efeito no número de internamentos ser diferido no tempo. Entre outras variáveis.

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