Aos jornalistas, esta quinta-feira, durante um passeio na Festa do Livro nos jardins do Palácio de Belém, em Lisboa, acompanhado pelo ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, Marcelo Rebelo de Sousa confessou ainda não ter lido o artigo escrito por Cavaco Silva no jornal "Observador" e publicado na quarta-feira de manhã.

Nele, o ex-presidente da República fala na terceira pessoa, dirigindo-se a António Costa e começando até por se desculpar pelo "atraso com que o felicito publicamente pela conquista da maioria absoluta nas eleições de 30 de Janeiro. Foi uma vitória da sua pessoa como líder do PS. Somos agora colegas no que à conquista de maiorias absolutas diz respeito".

Mas o que o ex-Presidente da República quis realmente foi dizer a Costa que, "encerrada a fase da 'geringonça', o seu Governo de maioria absoluta fará mais e melhor do que as maiorias de Cavaco Silva" lembrando, no entanto, que no tempo das suas maiorias absolutas "foram dados alguns passos que abriram novas perspectivas à sua geração e que facilitam agora a tarefa do seu Governo. Receio que, na excitação da tomada de posse, se tenha esquecido de que vários desses passos resultaram do diálogo e do consenso com o seu partido".

"Mas não li, ainda não li. Também desde já digo o seguinte: vou ler, vou interiorizar e não vou comentar, porque eu nunca comento antigos presidentes da República nem futuros presidentes da República", disse Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas.

Mesmo visando diretamente o atual Governo, o artigo de Cavaco Silva ainda não mereceu o olhar atento de Marcelo Rebelo de Sousa, ou não tinha merecido até ontem, pelo menos. Por falta de tempo, alegou o Presidente da República, mas não por falta de interesse: "Ah, isso nunca perco. Eu aprendo sempre com os sucessivos presidentes da República. E aprenderei com os próximos, se estiver vivo muito tempo." "Mas não li, ainda não li. Também desde já digo o seguinte: vou ler, vou interiorizar e não vou comentar, porque eu nunca comento antigos presidentes da República nem futuros presidentes da República", disse Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas.

O facto é que, mesmo nas entrelinhas, Marcelo já teceu críticas a outro Presidente da República. E o visado foi mesmo Cavaco Silva.

A 31 de agosto de 2017, por exemplo, Rebelo de Sousa respondeu aos recados que lhe tinham sido deixados por Aníbal Cavaco Silva, que lembrou que "em França não passa pela cabeça de ninguém um Presidente telefonar a um jornalista para lhe passar uma notícia" e que esta era uma "estratégia que contrasta com verborreia frenética da maioria dos políticos dos nossos dias, embora não digam nada de relevante".

O Presidente da República, assegurando que mesmo quando deixar de ser Presidente não fará comentários sobre os seus sucessores, fez questão de dizer que é preciso ter "contenção", além de "muito cuidado com o relacionamento com quem foi Presidente da República ou está a ser Presidente da República". Um recado que, mesmo que disfarçado, assentou no discurso anterior de Cavaco Silva.

"Por questão de cortesia, bom senso, de educação, mas sobretudo pelo respeito da função presidencial", justificou Marcelo Rebelo de Sousa, que referiu ainda que esse era um garante do "prestígio da democracia": "Se os sucessivos presidentes da República não têm respeito com o que dizem uns dos outros, acabam por não se fazerem respeitar pelo povo."

Salto para 27 de setembro de 2018, quando Marcelo Rebelo de Sousa comentou, de forma quase imperceptível, as declarações de Cavaco Silva sobre a nomeação da nova procuradora-geral da República, Lucília Gago, em substituição de Joana Marques Vidal.

Cavaco Silva, que tinha apelidado de "algo muito estranho" a não recondução da procuradora-geral da República", tendo em conta "a forma competente e o contributo decisivo" que Joana Marques Vidal deu para "a credibilidade do Ministério Público", fez questão de referir que esta era "a decisão mais estranha do mandato da 'geringonça'".

"Por questão de cortesia, bom senso, de educação, mas sobretudo pelo respeito da função presidencial", justificou Marcelo Rebelo de Sousa, que referiu ainda que esse era um garante do "prestígio da democracia": "Se os sucessivos presidentes da República não têm respeito com o que dizem uns dos outros, acabam por não se fazerem respeitar pelo povo."

Já Marcelo Rebelo de Sousa corrigiu as suas declarações: "Quem nomeia a procuradora são os Presidentes, não são os Governos. É uma decisão dos Presidentes. A nomeação da procuradora-geral da República foi uma decisão minha e de mais ninguém. Portanto, o que me está a dizer é que o Presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato."

"Perante isso eu tenho sempre o mesmo comportamento. Entendo, que, desde que tenho estas funções, não devo comentar nem ex-Presidentes, nem amanhã quando deixar de o ser, futuros Presidentes. Por uma questão de cortesia e de sentido de Estado", acrescentou Rebelo de Sousa.

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