"Em setembro passado, o senhor fez um apelo aos portugueses para que se vacinassem contra a gripe. E disse-nos, baseado na garantia que lhe tinha dado a ministra da Saúde, que havia vacinas disponíveis para todos. Ora, os portugueses responderam a esse apelo, acorreram em massa a vacinar-se e afinal foram enganados, não havia vacinas para todos. Explicou depois a ministra da Saúde que o entusiamo, a adesão tinha sido tão grande que não houve vacinas. Sentimo-nos legitimamente enganados", afirmou o jornalista Miguel Sousa Tavares, lançando depois a seguinte questão dirigida ao entrevistado (ontem à noite, na TVI), Marcelo Rebelo de Sousa: "Agora vem aí a vacina da Covid-19, onde vão estar em jogo vidas humanas, e eu pergunto se o senhor Presidente vai empenhar-se para que - por desleixo, por falta de planeamento, por falta de organização, ou até por um misto de proteção interpares - não aconteça vidas de portugueses serem inutilmente sacrificadas por falta de vacinação a tempo?"

"Os portugueses foram enganados, de facto. E eu já reconheci isso numa entrevista à RTP. Reconheci que eu disse baseado naquilo que era a convicção da senhora ministra da Saúde, estava aliás ao meu lado… Ela própria também não esperava aquele movimento que existiu", respondeu o Presidente da República e candidato a um segundo mantado no Palácio de Belém.

Confirma-se que os "os portugueses foram enganados" sobre a abrangência ou disponibilidade da vacina da gripe?

Tal como o Polígrafo já tinha verificado em primeira mão, em artigo publicado no dia 16 de novembro, a ministra da Saúde tinha garantido em outubro que não vão faltar vacinas contra a gripe.

No dia 19 de outubro, a ministra da Saúde participou numa visita à Unidade de Saúde Familiar "Descobertas", juntamente com a diretora-geral da Saúde, Graças Freitas, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o qual falou aos jornalistas presentes no local sobre aquela que considerou ser a "preocupação de muitos portugueses".

"Haverá vacinas em número suficiente para todos aqueles que queiram vacinar-se? E estarão disponíveis em tempo útil? E aquilo que me foi dito e a senhora ministra [da Saúde] acaba de confirmar é que até à primeira semana de dezembro, a partir deste momento, portanto, a partir de pouco mais de meados de outubro e durante o mês de novembro, progressivamente, todos os que eram vacinados serão vacinados", garantiu então Rebelo de Sousa.

O Presidente da República tomou a vacina da gripe nesse dia para dar o exemplo, apelando a que "aqueles poucos que não tivessem já a intenção de o fazer venham o mais rápido que possam". E assegurou que "todos os que quiserem vacinar-se serão vacinados".

© Agência Lusa / António Pedro Santos

Posteriormente, no dia 13 de novembro, a diretora-geral da Saúde avisou que a vacina da gripe não vai chegar para todos este ano devido à elevada procura ao nível mundial.

"Como há uma grande procura, algumas pessoas vão ficar sem vacina, é óbvio que sim, basta fazer contas. Nós temos mais pessoas nestes grupos etários e nestes grupos de risco do que aquelas vacinas que o país conseguiu comprar, mas isso tem a ver com a disponibilidade de vacinas que havia ao nível mundial", declarou Graça Freitas, em contradição com a garantia dada por Rebelo de Sousa em outubro, atribuída na altura ao que lhe "foi dito" e "a senhora ministra [da Saúde] acaba de confirmar".

Em suma, a afirmação de ontem de Rebelo de Sousa, admitindo que "os portugueses foram enganados" por algo que o próprio "disse baseado naquilo que era a convicção da senhora ministra da Saúde", tem sustentação factual.

Até porque entretanto a ministra da Saúde não desmentiu que tenha dado essa garantia ao Presidente da República. Em entrevista conjunta ao jornal "Público" e à rádio Renascença, a 26 de novembro, questionada sobre as declarações de Rebelo de Sousa na Unidade de Saúde Familiar "Descobertas" e sobre "porque é que o Governo passou esta mensagem de que todos os que queriam vacinar-se iriam poder fazê-lo", Marta Temido respondeu da seguinte forma, laconicamente: "Todos os que queiram com critérios".

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Avaliação do Polígrafo:

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