"Agora já perceberam a razão de o agente Manuel Morais pedir a decapitação de André Ventura? Este é o tal que fica suspenso por 10 dias", lê-se numa das publicações em causa, mostrando uma fotografia do agente do Corpo de Intervenção da PSP abraçado a Ana Gomes, ex-candidata à Presidência da República que defende que a legalização do partido Chega deve ser reapreciada pelo Tribunal Constitucional.

O próprio André Ventura, em publicação de 5 de março no Facebook, apontou no mesmo sentido. "Sejam sérios, deixem de ser tendenciosos! O agente Manuel Morais não foi suspenso da PSP por criticar as minhas ideias, mas sim por defender a minha decapitação. Sim decapitação", escreveu o líder do Chega, partilhando uma imagem do post de Manuel Morais que originou a suspensão.

"Mas que culpa tem o nosso Cristóvão Colombo e o nosso Padre António Vieira de existirem aberrações como o André Ventura? Parem, gente inculta, seus irracionais, não decapitem a história de um povo, decapitem estes racistas nauseabundos que nem merecem a água que bebem, embora seja um trabalho árduo e inglório porque só têm merda na cabeça, façam-no com máscara para aliviar o cheiro", escreveu Manuel Morais, em junho de 2020.

Lendo assim a mensagem, sem contexto, parece estar numa zona cinzenta entre o literal e o simbólico.

O agente da PSP referia-se à decapitação ou vandalização de estátuas, em vaga iniciada nos EUA, na sequência da morte de George Floyd, cidadão afro-americano asfixiado por agentes da polícia em Minneapolis, e que também chegou a Portugal, atingindo por exemplo uma estátua do Padre António Vieira em Lisboa.

No entanto, isoladamente, "decapitem estes racistas nauseabundos" parece ir um pouco mais além do mero sentido simbólico, desde logo porque mencionou especificamente André Ventura. Repetimos que parece estar numa zona cinzenta, passível de interpretações distintas.

Por causa dessa mensagem publicada nas redes sociais, Manuel Morais foi recentemente castigado com uma suspensão por 10 dias da sua atividade profissional na PSP.

Segundo informou o jornal "Diário de Notícias", na edição de 30 de janeiro de 2021, "de acordo com o relatório final deste processo, conduzido pelo Núcleo de Deontologia e Disciplina da UEP, na sua inquirição, Manuel Morais esclareceu que 'em momento algum quis ofender ou decapitar alguém no verdadeiro sentido da palavra, nomeadamente na pessoa do senhor deputado. Apenas quis transmitir que é necessário decapitar ideias racistas que prejudicam a sociedade em geral".

Mais, alegou que "posteriormente, tentou entrar em contacto com o senhor deputado para esclarecer que não lhe desejava mal e pedir desculpas caso a sua publicação o tivesse ofendido, no entanto, tal não lhe foi possível".

Explicou também que "quando referiu para se decapitarem os racistas, era no contexto em que várias estátuas estavam a ser vandalizadas, pelo que utilizou essa expressão, tentando mostrar que era errado destruir o nosso património histórico, cortando as cabeças às estátuas, e que seria melhor acabar com o racismo, ou seja, decapitar o racismo".

Tendo presentes o devido contexto e a justificação de Manuel Morais, concluímos que não terá pedido literalmente "a decapitação de André Ventura", mas apenas num sentido simbólico, ainda que de uma forma dúbia (ou equívoca) e passível de interpretações distintas.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Falta de contexto: conteúdos que podem ser enganadores sem contexto adicional.

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