"Esta é uma das pinturas mais famosas da história americana: Declaração da Independência. Decidi colocar pontos vermelhos em todos os homens que possuíam escravos. (...) A amarelo estão os únicos que libertaram todas as pessoas que detinham. Thomas Jefferson, que assinou a Declaração de Independência, violou uma das mulheres que escravizou", lê-se na sequência de tweets de 1 de setembro de 2019, que soma mais de 50 mil partilhas.

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A obra a óleo, datada de 1818 e da autoria de John Trumbull, representa o ano de 1776 e inclui 47 homens, entre os quais Thoman Jefferson, John Hancock e Ben Franklin. Agora em exposição no Capitólio dos Estados Unidos da América, o quadro mostra o momento em que é apresentado pela primeira vez o projeto de Declaração da Independência dos Estados Unidos ao Congresso, a 28 de junho, e não a sua assinatura, que viria a acontecer cerca de um mês depois. Dos 47 homens representados, 42 eram signatários do documento.

Segundo o autor do tweet em causa, 34 dos 47 homens representados na obra eram proprietários de escravos, ou seja, 71%. Naquela que foi considerada uma pesquisa desafiante, a plataforma de verificação de factos americana "PolitiFact" aponta para os mesmos dados, num artigo de 10 de setembro de 2019, ressalvando que não existe, no entanto, uma fonte definitiva acerca desta questão.

Depois de entrar em contacto com "mais de uma dezena de historiadores e organizações históricas", o "PolitiFact" assume que nenhum deles conseguiu remeter para uma lista identificativa do número de homens representados na pintura que eram proprietários de escravos.

"Eu presumi que seria fácil descobrir quantos deles é que possuíam escravos, mas é uma questão surpreendentemente elusiva", relatou ao "PolitiFact" Thomas Kidd, professor de história da Universidade de Baylor.

Uma imagem, divulgada pelo órgão governamental "Architect of the Capitol", contendo a identificação dos 47 homens representados na pintura de Trumbull, pode ser utilizada como ponto de partida para uma pesquisa sobre cada um deles. Este documento, disponibilizado pelo "PolitiFact", revela as ligações entre alguns dos homens e um passado de práticas de escravatura.

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"Grande parte da quantificação é supostamente baseada nos registos disponíveis", afirmou à plataforma o historiador Terry Bouton, da Universidade de Maryland, referindo ainda que o problema "é que os registos de propriedades são bastante irregulares para os fundadores mais obscuros e até mesmo para alguns dos maiores nomes".

Com recurso a "livros, organizações históricas, artigos de pesquisa e outras fontes", o "PolitiFact" considera haver "fortes evidências" para confirmar a denúncia do tweet. "Os proprietários de escravos tendiam a ser homens de posses, incluindo proprietários de terras, médicos, advogados e funcionários do governo local", lê-se no artigo.

Assim, são estes os 34 homens com fortes evidências relativamente à posse de escravos: Josiah Bartlett, Charles Carroll, Samuel Chase, Abraham Clark, George Clinton, John Dickinson, William Floyd, Benjamin Franklin, John Hancock, Benjamin Harrison, Joseph Hewes, Thomas Heyward Jr., William Hooper, Stephen Hopkins, Francis Hopkinson, Thomas Jefferson, Richard Henry Lee, Francis Lewis, Philip Livingston, Robert R. Livingston, Thomas Lynch, Arthur Middleton, Lewis Morris, Robert Morris, William Paca, George Read, Benjamin Rush, Edward Rutledge, Richard Stockton, William Whipple, Thomas Willing, John Witherspoon, Oliver Wolcott e George Wythe.

De fora da lista, mas representados na pintura em causa, ficam ainda John Adams, Samuel Adams, George Clymer, William Ellery, Elbridge Gerry, Samuel Huntington, Thomas McKean, Robert Treat Paine, Roger Sherman, Charles Thomson, George Walton, William Williams e James Willson.

Ainda assim, ao "PolitiFact" Sean Wilentz, professor de história da Universidade de Princeton, ressalva que pelo menos três dos homens representados na obra se tornaram abolicionistas. Importa ainda referir que, em 1776, a escravatura era uma prática legal e até "tolerada por todo o Ocidente", inclusive no Reino Unido e na França, observa Wilentz.

Gordon Wood, também ele professor de história da Universidade Brown, afirma ao "PolitiFact" que a alegação em causa revela o quão "prevalente era a escravatura", admitindo no entanto que o importante é que esta "começou a ser atacada e eliminada a partir daquele momento".

Em suma, embora não haja uma fonte clara e definitiva para confirmar esta questão, é seguro afirmar que pelo menos 34 dos 47 homens presentes no quadro de Trumbull eram proprietários de escravos, tal como apontou o autor do tweet que é, ainda hoje, amplamente partilhado.

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Avaliação do Polígrafo:

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