Quando o assunto são as alterações climáticas, a opinião de um cientista tem maior peso junto da opinião pública. É com base nesta premissa que uma informação segundo a qual mais de 30 mil cientistas consideram que o aquecimento global é uma ficção ganhou força viral nas redes sociais, nomeadamente nos Estados Unidos. Vários artigos publicados, e posteriormente disseminados, defendem essa tese. Exemplos: os publicados nos sites Natural News e News Punch. Mas será que é verdade?

Vamos por partes. Antes de mais, os artigos têm como base uma petição lançada nos Estados Unidos supostamente assinada apenas e só por cientistas. As assinaturas até foram recolhidas, mas a sua credibilidade é altamente questionável, tendo em conta que as habilitações de cada assinante são registadas pelo próprio, sem que a informação seja passível de confirmação. No documento que é necessário preencher para participar na petição, surgem as opções “B.S”, “M.S” e “Ph.D”, referentes aos termos licenciatura, mestrado e doutoramento, respetivamente. Qualquer um, até um analfabeto, pode declarar que é doutorado em ciências.

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Apesar de estar presente nas instruções que “é requerido aos signatários da petição que tenham formação de análise da informação e ciências físicas”, não estão disponíveis quaisquer comprovativos de que todos os assinantes tenham as habilitações académicas que afirmam possuir.

A plataforma considera "cientista" quem tenha uma “licenciatura, mestrado, ou doutoramento em ciências, engenharia ou estudos relacionados”, pode ainda ler-se. É também com base nesta classificação que os artigos que se referem à petição afirmam existir mais de 9 mil doutorados que se manifestam contra o aquecimento global.

Por outro lado, lendo os fundamentos da petição é possível constatar que o seu objetivo é incentivar o governo norte-americano a recusar as medidas do protocolo de Quioto, que foi assinado em dezembro de 1997 para diminuir da emissão dos gases de estufa no planeta. “Não existem provas científicas convincentes de que a produção, por parte do homem, de dióxido de carbono, metano ou outros gases de estufa está a causar ou vai, no futuro previsível, causar o aquecimento catastrófico da atmosfera terrestre e destruir o clima da Terra”, explicam os autores.

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Ou seja, quem assina a petição não está a afirmar que a aquecimento global não existe, está sim a pedir ao governo norte-americano que não aceite as condições do acordo internacional, argumentando com a falta de provas científicas que comprovem que este possa destruir a Terra e, no limite, o próprio ser humano.

Objetivo: Eleições americanas

Ambos os artigos foram publicados em 2016, antes das eleições presidenciais nos EUA, mas três anos depois continuam a ser partilhados milhares de vezes. Quanto à petição, esta foi iniciada em 1998 – ou seja, há mais de 20 anos –, segundo a plataforma de fact checking “Hoax-Alert”.

Nenhuma das publicações foi inocente. Ambas pretenderam sublinhar, em plena disputa eleitoral entre Hillary Clinton e Final Trump, que  em caso de vitória de Clinton os "ambientalistas" tomariam conta da "West Wing".

Clinton perdeu e Donald Trump foi eleito presidente dos EUA em representação dos republicanos. E, desde então, Trump tem vindo a afirmar publicamente a suas reservas sobre o aquecimento global. Por diversas vezes o Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, criticou a posição do homólogo sobre as alterações climáticas.

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Dados referentes às análises climatéricas do último século em Portugal concluem que houve um período de aquecimento da temperatura média no país entre 1910 e 1945, ao qual se seguiu um arrefecimento entre 1946 e 1975. Entre 1976 e 2000 foi registado um “aquecimento mais acelerado”, garante a Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Também o aumento do número de “dias de verão”, de “noites tropicais” e de “ondas de calor”, assim como a diminuição dos “dias e noites frias” e das “ondas de frio” são os dados que permitem à agência governamental concluir que “as alterações climáticas não são, portanto, algo que irã ocorrer num futuro longínquo, mas antes um processo dinâmico que está em curso e que urge conhecer, acompanhar e compreender”.

 Avaliação do Polígrafo:

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