O primeiro jornal português
de Fact-Checking

Mães solteiras têm quatro vezes mais probabilidade de recorrer a IVG, como diz Rita Matias?

Sociedade
O que está em causa?
As mães solteiras têm mesmo quatro vezes mais probabilidade de recorrer a IVG? E as mães estrangeiras são duas vezes mais vulneráveis ao aborto? Rita Matias garante que sim. Os dados da DGS ajudam a confirmar as contas, mas não permitem traçar qualquer padrão. Afinal, a entidade limita-se a fazer uma análise de características sociodemográficas.
© Shutterstock

Os números que a deputada do Chega partilhou na última quinta-feira na rede social X estão a ser colocados em causa, apesar de Rita Matias garantir que têm por bases dados oficiais da DGS. Afinal, confirma-se ou não que “as mães grávidas sozinhas têm quatro vezes mais probabilidade de abortar”, que “as mães grávidas estrangeiras são duas vezes mais vulneráveis ao aborto” ou ainda que “terceiros filhos e seguintes têm duas vezes mais probabilidade de ser abortados”?

A primeira nota a fazer é que não é possível falar em “probabilidade”, uma vez que a análise é feita apenas aos dados disponíveis para 2022 e não é possível traçar um padrão. A segunda é que, no relatório citado por Matias, a própria DGS limita-se a fazer uma análise às características sociodemográficas das mulheres que realizam IVG nas primeiras 10 semanas de gravidez, não estabelecendo nenhum termo de comparação nem avançando para as contas feitas pela deputada. Significa isto que esta é uma análise independente, com conclusões independentes e que não surgem veiculadas à DGS, que aliás lembra, no final do documento, que o “acesso a cuidados de saúde sexual e reprodutiva, incluindo o aborto, seguros, atempados, acessíveis e respeitadores, é uma questão de saúde pública e de direitos humanos”.

Regimes de Habitação

De acordo com o último relatório da DGS, em 2022 um total de 42,2% das mulheres que efetuaram Interrupção Voluntária da Gravidez nas primeiras 10 semanas viviam em regime de coabitação. Isso deixa-nos com 57,5% das mulheres, que avançaram para IVG, a viver sozinhas. Em valores concretos, 9.131 das IVG realizadas em 2022 envolveram mães solteiras. Se tivermos em conta que, nesse mesmo ano, nasceram em Portugal 83.671 bebés, 14.131 dos quais sem coabitação dos pais, percebemos que 39,3% das gravidezes em mães solteiras resultam em aborto.

Quando as mulheres vivem com o pai dos seus filhos (mesmo que com eles não tenham contraído matrimónio) a percentagem desce para os 8,7% (6.691 IVG em cada 76.231 gravidezes), o que confirma o primeiro dado avançado por Rita Matias.

Mães Estrangeiras

No mesmo ano, aponta o relatório da DGS, as mulheres estrangeiras realizaram em Portugal um total de 4.582 IVG. Tendo em conta que, também em 2022, nasceram em Portugal 14.003 bebés filhos de mãe não-portuguesa, as contas comprovam que a percentagem de IVG rondou nesse ano os 24,7%. Já em mães portuguesas, responsáveis por 69.668 nascimentos em 2022, o número de IVG foi de 11.286, o que resulta numa percentagem de 13,9%.

Terceiros filhos e seguintes

Em 2022, nasceram em Portugal um total de 11.282 bebés com estatuto de terceiro filho ou seguintes, mostram os dados do INE. No mesmo período, houve 4.150 IVG nesta situação, o que resulta numa percentagem de 26,9% de IVG no total de gravidezes.

Nos primeiros e segundos filhos a percentagem é ligeiramente diferente: houve 11.720 IVG em mães com nenhum ou um filho e um total de 72.707 nascimentos. Contas feira: uma percentagem de IVG de 13,4%.

______________________________

Avaliação do Polígrafo:

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque