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Ligar o ar condicionado do carro após exposição ao Sol pode libertar “excessivas quantidades” de benzeno?

Sociedade
O que está em causa?
Publicação viral nas redes sociais alerta para o perigo que representa o sistema de ar condicionado de um automóvel que esteve fechado ao Sol durante algumas horas. Devido à suposta libertação de uma "substância tóxica", o benzeno, que "além de causar cancro, envenena os ossos, causa anemia e reduz as células brancas do sangue". Verdade ou mentira?
© Shutterstock

Numa publicação no Facebook partilhada no final de março alega-se que o ar condicionado dos automóveis é perigoso para a saúde das pessoas, devido a elevadas concentrações de benzeno que são libertadas quando “o ar refrescante antes de sair frio, manda todo o ar do plástico quente”.

De acordo com o post, a libertação desta substância “além de causar cancro, envenena os ossos, causa anemia e reduz as células brancas do sangue”. Sublinha-se depois que “é extremamente difícil para o organismo expulsar” o benzeno, sendo por isso recomendado pelo manual do condutor que se “mantenham os vidros abertos” durante alguns minutos antes de se ligar o ar condicionado.

“A pessoa que entra no carro mantendo as janelas fechadas inevitavelmente aspirará, em rápida sucessão, excessivas quantidades desta toxina“, alerta-se.

Esta publicação é recente, mas a alegação circula desde há anos nas redes sociais – o Polígrafo verificou um post similar em 2022. E, no que respeita especificamente à ideia de que o ar condicionado dos automóveis liberta “excessivas quantidades” de benzeno, não tem fundamento.

De acordo com o pneumologista João Carlos Winck, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), o benzeno “é um composto volátil com comprovada toxicidade para os seres humanos” que é reconhecido desde 1979 pela Agência Internacional de Investigação no Cancro (IARC) e pelo Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos da América pelo seu potencial carcinogénico. No entanto, afirmou o especialista ao Polígrafo em 2022, a libertação de benzeno pelo ar condicionado no interior dos automóveis, mesmo em tempo quente, é insignificante.

O especialista assume que é verdade que se deve abrir os vidros de um veículo que esteve fechado durante algumas horas antes de ligar o ar condicionado, não por causa da concentração de benzeno, mas porque reduz os níveis de dióxido de carbono (CO2) que se acumulam, devido à respiração dos passageiros que, em elevados níveis, “pode provocar sonolência, aumentando o risco de acidente”.

Porém, manter essa janela aberta em zonas de elevada poluição pode não ser a melhor solução: “Quando abrimos as janelas dos automóveis no meio de um trânsito intenso, no centro de uma cidade com níveis altos de poluição atmosférica, corremos também o risco de aumentar os níveis de poluentes no seu interior (nomeadamente monóxido de carbono, partículas finas, metais pesados, compostos voláteis incluindo o próprio benzeno).”

O que influencia a concentração de benzeno?

vários fatores que influenciam a concentração de benzeno no interior de um veículo que vão além do ar condicionado, nomeadamente a “temperatura interior, a taxa de ventilação e o modo, a humidade, a radiação solar, a idade e a qualidade do veículo, o valor da cabine, o material de estofos do automóvel ou a distância de viagem”, explica o pneumologista.

Outra fonte de libertação de benzeno é o “fumo do tabaco, gases de escape dos veículos, a evaporação dos veículos a motor, pontos de venda de combustível e emissões industriais”. Ou seja, todas as pessoas são expostas diariamente a pequenas quantidades de benzeno, como é expresso também pelo site da Agência de Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças (ATSDR) do Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

Ar condicionado é ou não responsável?

Segundo a empresa francesa Centrais Elétricas de Climatização, que fabrica sistemas de ar-condicionado para automóveis desde 1958, é “totalmente falso” que o ar condicionado seja fonte de libertação desta toxina. “Um sistema de ar-condicionado automotivo é um sistema que opera em um circuito fechado e selado, com elementos que transformam o gás em líquido e o líquido em gás”, explicou Pascale Pujol em 2019 à AFP Checamos.

“Os sistemas de ar condicionado de automóveis não emitem benzeno e sua vedação é verificada a cada revisão técnica”, concluiu Pujol.

Vários estudos científicos apontam que as concentrações de benzeno no ar condicionado dos automóveis são muito baixas para serem consideradas perigosas. Um deles, realizado na Coreia do Sul em 2001, analisou a exposição a alguns compostos que os passageiros de um automóvel ou do transporte público podem ter e concluiu-se que as concentrações de benzeno provêm do combustível utilizado nos veículos, e não dos componentes internos como é o caso do sistema de ar condicionado.

Mais recentemente, em 2017, num artigo publicado pela Universidade de McGill, o professor de química Joseph Schwarcz descartou qualquer risco para os passageiros de um carro relacionado com o benzeno. A alegação contém “uma pequena parte de verdade”, mas está a ser exagerada.

Em suma, é verdade que elevados níveis de benzeno podem ser prejudiciais para a saúde, mas é falso que o ar condicionado seja responsável por “excessivas quantidades” desta substância no interior de um veículo. A população está exposta diariamente a pequenas quantidades desta substância e apenas uma elevada e prolongada exposição se torna um risco para a saúde.

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Avaliação do Polígrafo:

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