Numa publicação nas redes sociais é afirmado que o “golpe de Estado contra Dilma colocou 33 milhões de brasileiros passando fome” e que “com Lula [da Silva] o Brasil saiu do mapa da fome da ONU”. A imagem surge como apoio político ao antigo Presidente brasileiro que já anunciou a recandidatura ao Palácio do Planalto.

"O Brasil tem hoje 33 milhões de pessoas passando fome e isso é resultado da "ponte para o futuro", implantada após o golpe de Estado contra a ex-presidente Dilma Rousseff, que reduziu direitos trabalhistas e transferiu a renda dos brasileiros para os acionistas privados da Petrobrás. O País, que havia saído do mapa da fome, hoje ostenta uma posição vergonhosa, mas ainda assim os jornais Globo e Folha publicaram editoriais nesta quarta-feira em que criticam o programa económico do PT - Partido dos Trabalhadores", escreve Paulo Pimenta, deputado federal do PT.

É verdade que, em 2014, o Brasil saiu do chamado "Mapa da Fome", um indicador utilizado pelas Nações Unidas para avaliar os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio. Nesse ano, como noticiou o "Exame", o relatório desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla inglesa), pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) avançava que a taxa de desnutrição no país tinha descido de 10,7% para 5% entre 2003 e 2014.

Também ao nível da pobreza, as notícias eram positivas: “foi assinalado que a pobreza no país foi reduzida de 24,3% para 8,4% entre 2001 e 2012, enquanto a pobreza extrema também caiu de 14% para 3,5%”, escrevia ainda o jornal. De facto, na maior parte dos períodos referidos neste relatório a República do Brasil era presidida por Lula da Silva (2003-2011) e Dilma Rousseff (2011-2016).

Com o final dos "Objetivos do Desenvolvimento do Milénio", foram estipulados 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o "Mapa da Fome" deixou de ser divulgado a partir de 2014. São publicados, no entanto, relatórios sobre o estado da segurança alimentar e nutricional no mundo, ao abrigo do Programa Alimentar Mundial, também da ONU.

Dados disponibilizados recentemente pela FAO mostram que, entre 2014 e 2016, 1,9% da população brasileira (ou seja 3,9 milhões de pessoas) estavam em situação de insegurança alimentar severa. Nos anos seguintes, a percentagem registou uma descida ligeira, até ao biénio 2017-2019, onde o valor mais baixo – 1,6% (3,4 milhões de pessoas). A tendência inverteu-se entre 2018 e 2020 e a percentagem de pessoas em situação de insegurança alimentar severa duplicou: 3,5% (7,5 milhões).

No que toca aos níveis de insegurança alimentar moderada, os valores referidos no relatório da FAO mostram também uma subida, com oscilação em alguns dos biénios analisados: entre 2014-2016 e 2018-2020 a percentagem de brasileiros nesta situação subiu de 18,3% (37,5 milhões de pessoas) para 23,5% (49,6 milhões de pessoas).

Um estudo desenvolvido pelo Instituto Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), que foi divulgado esta quarta-feira, avança que 58,7% da população do Brasil vive com insegurança alimentar, ou seja perto de 33 milhões de pessoas passam fome. Trata-se de um retrocesso até à década de 1990.

“A pandemia surge neste contexto de aumento da pobreza e da miséria, e traz ainda mais desamparo e sofrimento. Os caminhos escolhidos para a política económica e a gestão inconsequente da pandemia só poderiam levar ao aumento ainda mais escandaloso da desigualdade social e da fome no nosso país”, explica Ana Maria Segall, médica epidemiologista e investigadora da Rede Penssan, ao jornal "Correio Braziliense".

A diferença nos valores entre a ONU e a Rede Penssan é justificada pelos indicadores, explicou ao "Brasil de Fato" Renato Maluf, coordenador do instituto. “A percentagem de pessoas subalimentadas [PoU- Prevalence of Undernourishment, em inglês] é uma medida distinta da escala de insegurança alimentar que mede a perceção sobre a sua condição e da sua família e indica, no caso da insegurança alimentar severa, quando o respondente diz que ao menos um membro da família naquele período passou fome. Isso é diferente de calcular o percentual de pessoas subalimentadas, que é o PoU.”

Assim, é verdade que o Brasil deixou o "Mapa da Fome" da ONU em 2014 e que a percentagem de pessoas em situação de fome severa aumentou significativamente nos últimos anos.

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