“44% das pessoas negras são seropositivas”, pode ler-se num post que foi partilhado nas redes sociais. Com esta informação, o autor deixava um alerta aos cibernautas para “serem responsáveis” e manterem-se seguros. Os dados estão corretos?

Não é verdade que 44% as pessoas negras sejam seropositivas ou tenham SIDA. Esta percentagem resulta de uma má interpretação de dados estatísticos referentes a 2019, nos Estados Unidos. Segundo a plataforma de fact-checking LeadStories, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA publicou a seguinte frase: “Apesar de os afro-americanos representarem apenas 13% da população dos EUA, eles contabilizam 42,1% das infeções VIH em 2019." O mesmo relatório avança que, nesse ano, foi estimado um total de 36.398 diagnósticos nos Estados Unidos, sendo que 15.334 (42,1%) foram indivíduos afro-americanos, enquanto 9.013 (24,7%) foram caucasianos.

Segundo dados do Gabinete de Censos dos EUA, 46,9 milhões de afro-americanos vivem nos Estados Unidos. Se, de facto, 44% da população afro-americana estivesse infetada por VIH, contabilizava-se cerca de 21 milhões só nos EUA. No entanto, esse valor é 20 vezes superior ao número total de infeções estimadas no país – cerca 1,2 milhões, avança o HIV.gov.

“Apesar de os afro-americanos representarem apenas 13% da população dos EUA, eles contabilizam 42,1% das infeções VIH em 2019”.

Além disso, em vários países, a informação referente à etnia da pessoa diagnosticada com infeção de VIH não é registada. É o caso de Portugal: “Quer nas notificações, quer nos estudos, a etnia não é recolhida, tendo em conta as recomendações da Comissão de Proteção de Dados”, afirma Joaquim Oliveira, infecciologista no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra e presidente da mesa da assembleia-geral da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da SIDA.

O especialista garante ainda que “não há uma suscetibilidade individual aumentada” associada à cor da pele, mas reconhece que algumas comunidades podem apresentar uma “sobre representação”. “Não é devido a uma suscetibilidade maior. São os fatores sociais, económicos, de acesso aos cuidados de saúde, de prevenção, etc., que levam a que estas populações tenham uma sobre representação da infeção VIH nas suas comunidades”, explica o especialista.

“Quer nas notificações, quer nos estudos, a etnia não é recolhida, tendo em conta as recomendações da Comissão de Proteção de Dados”.

As estimativas apresentadas no Relatório Infeção VIH e SIDA em Portugal, publicado em 2020 (dados mais recentes), “revelaram que no final de 2018 viviam em Portugal 41.305 pessoas com infeção por VIH, 6,8% das quais não estavam diagnosticadas”. Já em 2019, foram “diagnosticados 778 novos casos de infeção por VIH em Portugal, o que equivale a uma taxa de 7,6 casos/100 mil habitantes”, “172 novos casos de SIDA e 197 óbitos” em casos de infeção por VIH ou SIDA.

Entre 1983 (data em que começaram a ser registados casos) e o final de 2019, foram registados, cumulativamente, 61.433 casos de infeção por VIH em Portugal, dos quais 22.835 em estádio SIDA. No mesmo período morreram 15.213 pessoas em casos de infeção por VIH.

A nível mundial, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), existiam, em 2020, cerca de 37,7 milhões de pessoas a viver com VIH. Os países com maior prevalência de seropositividade e SIDA estão localizados em África.

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