O líder do PSD Açores que estará prestes a ser reconduzido como presidente do Governo Regional dos Açores - depois de ter vencido as eleições de 4 de fevereiro para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), através de uma coligação entre PSD, CDS e PPM) -, garantiu ontem à noite (7 de fevereiro) na "Grande Entrevista" à RTP que não está a encetar contactos com o Chega - nem qualquer outro partido - com o objetivo de estabelecer acordos de governação (ou de incidência parlamentar para a viabilização de um Governo de maioria relativa).

A intenção de Bolieiro, tendo em conta os resultados eleitorais, passa por formar um Governo de maioria relativa e, como tal, apela ao "sentido de responsabilidade" do PS - principal partido da oposição - para o viabilizar.

Nesse sentido recordou que "aliás, o PS já formou um Governo com maioria relativa e contou com o PSD e o CDS para viabilizar a governação para cumprimento do mandato" nos Açores.

E sublinhou que "nem que fosse por esta memória, aqui o povo perceberá a diferença entre quem põe os Açores e os interesses dos açorianos em primeiro lugar do que o interesse partidário. É sobretudo a política de 'terra queimada'".

Entretanto, o líder do PS ao nível nacional, Pedro Nuno Santos, reagiu hoje ao apelo de Bolieiro, acusando-o de ter mentido.

"Tivemos oportunidade de ouvir o presidente do Governo Regional dos Açores dizer que, em 1996, o PSD tinha aprovado um Governo do PS. Pois, é falso. Chumbaram e votaram contra", afirmou. Lembrou também que, em 2020, o PSD Açores aliou-se ao Chega para impedir que o PS Açores governasse.

Apontando o dedo à "incoerência" de Bolieiro, o líder do PS argumentou: "Nós sabemos que a coligação [PSD, CDS e PPM] venceu. E a coligação, mais Iniciativa Liberal e Chega, tem maioria. Isso é o que nós todos sabemos. Aquilo que o PSD quer é quando perde as eleições, fazer uma aliança com o Chega, quando ganha as eleições, quer que o PS suporte o Governo. Basicamente isto era uma forma fantástica, era a forma de garantir que o PSD era sempre poder."

No que respeita à memória de 1996, afinal quem é que tem razão?

Após cerca de 20 anos de governação do PSD nos Açores (desde as primeiras eleições pós-Revolução do 25 de Abril de 1974), sob a liderança de João Bosco Mota Amaral, o PS de Carlos César venceu as eleições de 1996, ainda que elegendo o mesmo número de deputados (24) do que o PSD. Também o CDS (3) e o PCP (1) obtiveram representação parlamentar.

César avançou com a formação de um Governo de maioria relativa e teve o seu primeiro "teste de fogo" na aprovação do Programa de Governo, a 22 de novembro de 1996, na ALRAA. De acordo com o diário oficial da sessão parlamentar desse dia (pode consultar aqui), os deputados do PS e do CDS votaram a favor, o do PCP absteve-se e os do PSD votaram contra.

Ou seja, ao contrário do que disse Bolieiro, o PSD não viabilizou o Governo de maioria relativa formado pelo PS de César em 1996.

E dois anos depois, em 1998, nem o CDS valeu ao PS, devido a uma troca de liderança (e de estratégia política). Nessa altura, o PSD e o CDS planearam mesmo avançar com uma moção de censura para derrubar o Governo de César. Quem impediu essa queda a meio da legislatura acabou por ser o então Presidente da República, Jorge Sampaio, que intercedeu e garantiu ao então líder do PSD Açores, Carlos Costa Neves, que não daria posse a um novo Governo e convocaria eleições.

Foi devido à intervenção de Sampaio que o Governo de César acabou por cumprir o mandato até ao fim. Não foi viabilizado pelo PSD e CDS, apesar da posição inicial dos centristas que depois mudou a meio da legislatura. O PS viria posteriormente a conquistar uma maioria absoluta nas eleições de 2000 e César governou durante 16 anos no total.

________________________________

Avaliação do Polígrafo:

Assine a Pinóquio

Fique a par dos nossos fact checks mais lidos com a newsletter semanal do Polígrafo.
Subscrever

Receba os nossos alertas

Subscreva as notificações do Polígrafo e receba os nossos fact checks no momento!

Em nome da verdade

Siga o Polígrafo nas redes sociais. Pesquise #jornalpoligrafo para encontrar as nossas publicações.