"As pessoas agem como se fosse uma doença facilmente transmissível por contacto social e não é. Sabemos que são pessoas que estão com febre, escarrando ou tossindo para cima de outras [que podem transmiti-la]. É um quadro muito limitado que não é compatível com todo o alarme social que existe", lê-se na citação atribuída a Jorge Torgal, num post de 22 de março no Facebook.

A citação isolada é recolhida a partir de uma entrevista que o médico especialista em Saúde Pública concedeu ao jornal "Público", na edição de 12 de março de 2020, logo no início da pandemia, escassos dias após a detecção dos primeiros casos de infetados com Covid-19 em Portugal.

"Estamos perante uma situação em que 80% das pessoas infetadas terão uma forma ligeira da doença; teremos 15% e 20% de doentes mais diferenciados e 5% terão uma situação muito grave. Acho que isto é um quadro relativamente benigno, até porque presumo que Portugal nunca terá o mesmo número de doentes que teve a China. O quadro global nacional é relativamente positivo, face à morbilidade de outras patologias com que convivemos todos os dias", afirmou Jorge Torgal.

"Por outro lado, as pessoas agem como se fosse uma doença facilmente transmissível por contacto social e não é. Sabemos que são pessoas que estão com febre, escarrando ou tossindo para cima de outras [que podem transmiti-la]. É um quadro muito limitado que não é compatível com todo o alarme social que existe", acrescentou.

Importa aqui sublinhar que já foram registados mais de 820 mil casos de infeção por Covid-19 em Portugal, cerca de um ano depois da supracitada declaração de Jorge Torgal, ao passo que na China foram registados pouco mais de 90 mil casos de infeção, cerca de nove vezes menos em comparação com Portugal. Mas esta parte da declaração de Jorge Torgal - "presumo que Portugal nunca terá o mesmo número de doentes que teve a China" - foi cortada na citação que está a circular nas redes sociais.

Noutra entrevista ao "Jornal de Notícias", edição de 28 de fevereiro de 2020, Jorge Torgal assegurara que o novo coronavírus "é menos perigoso do que o vírus da gripe! Existe um pânico completamente desproporcional à realidade. As vítimas mortais de que se conhece o historial clínico tinham processos clínicos complicados. As outras infetadas estão a ser medicadas para a gripe, muitas delas com paracetamol".

"E é claro que haverá casos em Portugal, mas isso não é problema nenhum. Vivemos em sociedade, com deslocações, com convívio entre as pessoas. É uma doença que tem tratamento", garantiu o médico.

Questionado pelo Polígrafo sobre a primeira citação, da entrevista de 12 março de 2020, Jorge Torgal ressalva que tais considerações foram expressas à luz do que se sabia então sobre a doença. "É preciso ler o contexto, o conjunto da frase e a altura em que proferi a citação", sublinha.

"Embora haja uma grande diferença entre o que se sabia na altura, o facto é que é uma doença que é transmissível por aqueles que estão doentes. Sabemos que os assintomáticos transmitem muito pouco. Continuo a achar, infelizmente, que podíamos ter feito as coisas de outra maneira", afirma.

"Nós devemos proteger aqueles que se se infetarem podem ficar doentes com gravidade. E nós hoje sabemos quem são essas pessoas. Parar a sociedade inteira quando podíamos ter uma ação dirigida para estes, continuo a considerar que é um excesso. Porém, a partir do momento que se iniciou um caminho ao nível mundial de fechar a sociedade, é difícil para alguns governos tomar medidas excêntricas àquela que é a política geral", conclui.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falta de contexto: conteúdos que podem ser enganadores sem contexto adicional.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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