No domingo passado, Jorge Jesus completou a sua 32ª época consecutiva como treinador principal de futebol. Uma carreira em que passou por 14 clubes (três dos quais por mais do que uma vez), somando até ao momento 16 saídas de emblemas. Nestas mais de três décadas, conquistou diversos títulos nacionais e internacionais, três subidas de divisão e atingiu outros objetivos de clubes que treinou (qualificação para as provas europeias e manutenção no principal campeonato do futebol português).

Mas Jorge Jesus saiu desses clubes quase sempre “em vitória”, conforme sugeriu?

Tanto no início da carreira (começo da década de 90), como na respetiva continuação (primeiros anos deste século) e até recentemente, há registo de saídas de Jorge Jesus sem sucesso, algumas até com cessação contratual por parte da direção dos clubes. O Polígrafo faz a elencagem do presente para o passado:

Sporting (2018)

Depois de três épocas (de 2015/16 a 2017/8) de grandes investimentos e expectativas criadas, o treinador que trocara o Benfica pelo rival da mesma cidade viu o seu ainda presidente (Bruno de Carvalho) tomar a iniciativa para a rescisão do contrato (que durava até ao final da época 2018/19), que acabou por ser amigável. O balanço desportivo dos três anos revelou-se determinante: apenas um 2º lugar como melhor classificação no campeonato (I Liga), nenhuma Taça de Portugal e uma Taça da Liga. Treze anos depois, Jesus voltava a sair de um clube com o sabor da derrota.

Moreirense (2005)

No princípio de Abril, após a 27ª jornada (e a 7 jogos do fim), a direção do clube do concelho de Guimarães decidiu despedir Vítor Oliveira e contratar Jorge Jesus. A missão era salvar o Moreirense da descida à II Liga: estava em 17º lugar a 3 pontos da posição que dava direito à continuidade na competição. Apesar de ter perdido somente 3 dos 7 jogos, a verdade é que a equipa desceu mesmo de divisão (16º lugar), ficando ainda mais longe do lugar que procurava (4 pontos). Jesus não continuou na época seguinte.

Vitória de Guimarães (2004)

Ainda na 1ª volta, à 13ª jornada, o presidente do Vitória despediu Augusto Inácio e contratou Jorge Jesus. O clube encontrava-se no 1º dos 3 lugares (16º) que implicavam descida de divisão, a dois pontos do emblema que estava imediatamente à sua frente, muito aquém dos objetivos e tradição dos vimaranenses. No final da época, Jesus classificou o Vitória na 14ª posição, apenas dois pontos e posições acima dos lugares que acarretavam a descida de divisão. Pimenta Machado escolheu outro treinador para a época seguinte.

Estrela da Amadora (2003)

Jorge Jesus estava na segunda passagem como treinador no clube da sua terra. Tinha pegado na equipa a meio da época anterior (Janeiro de 2002), na II Liga, conseguindo uma boa performance, mas sem atingir os três primeiros lugares premiados. O objetivo em 2002/3 era justamente garantir a subida para o campeonato principal. Mas à 24 a jornada, o Estrela da Amadora ocupava o 4º lugar, a apenas 1 ponto do 3º, com 34 pontos perdidos em 24 jogos. A direção do clube entendeu proceder à troca de treinador, com Jesus a ser substituído por João Alves (que atingiria o 3º lugar e a ascensão de divisão, com 11 pontos perdidos em 10 jogos).

Vitória de Setúbal (2002)

Depois de na época anterior (2000/1) ter conduzido o clube ao regresso à I Liga, Jesus acabaria por sucumbir aos resultados: na 19ª jornada, após uma derrota na Póvoa de Varzim e o 17º lugar, deu-se a chamada “chicotada psicológica”. No final da época, a decisão verificou-se acertada, visto que o sucessor de Jesus (Luís Campos) levou o Vitória de Setúbal ao 12º lugar, evitando a despromoção à II Liga.

União da Madeira (1998)

Esta foi a passagem mais fugaz de Jorge Jesus por um clube – 6 jogos (no banco, entre 15 de Fevereiro e 22 de Março). Foi o 3º de 4 treinadores durante aquela época da equipa madeirense na II Liga (então chamada 2ª Divisão de Honra). Os resultados ditaram o seu despedimento: 4 derrotas, 1 empate e 1 vitória (apanhou o União a 7 pontos dos lugares de subida e deixou-o a 14, ao fim de um mês e meio). No jogo que determinaria o seu despedimento teve como adversário o Nacional (também da Madeira), curiosamente o mesmo oponente do seu último jogo ao comando do Felgueiras, ocorrido 70 dias dias antes.

Felgueiras (1998)

Jorge Jesus treinou o Felgueiras em dois períodos. Primeiro entre 1993 e 1996, conquistando a subida ao então Campeonato Nacional da I Divisão (94/95), para descer logo na época seguinte (95/96). Saiu no final dessa temporada, mas o sucesso na ascensão ao primeiro escalão e a excelente primeira volta que realizou nesse campeonato não fizeram de Jesus  perdedor nessa estadia em Felgueiras, saindo por sua iniciativa e ainda muito elogiado pelos sócios do clube. O seu substituto – Augusto Inácio –, em 96/97, não conseguiu colocar a equipa em lugares de promoção à I Divisão e, após a 20ª jornada (em Fevereiro), acabaria por ser demitido, dando-se o regresso de Jesus. O clube melhorou a sua classificação (de 6º para 4º lugar), ficando a 4 pontos da subida. Porém, na época seguinte (97/98), com a meta da I Divisão estabelecida, Jorge Jesus perderia o lugar de treinador do Felgueiras na penúltima jornada da 1ª volta (Janeiro), após um empate em casa com o Nacional e o 7º lugar na tabela (sucedeu-o Mário Reis, com pior desempenho).

Amora (1993)

O primeiro clube onde trabalhou como treinador trouxe a Jorge Jesus o sucesso de uma subida de divisão e a amargura de um despedimento. Na segunda época completa como técnico do Amora, Jesus arrancou uma promoção ao segundo escalão do futebol português, ganhando a então 2ª divisão B Zona Sul com 15 pontos de vantagem sobre o 2º lugar (quando a vitória ainda valia 2 pontos). Na época seguinte, na 2ª Divisão de Honra, o Amora não aguentou o embate e à 19ª jornada, quando estava em penúltimo lugar com apenas 11 pontos, Jesus saiu do comando da equipa do concelho do Seixal. Rui Nascimento foi o seu substituto, ainda que interinamente (e o Amora desceria de divisão).

Em suma, é falso que Jorge Jesus esteja habituado a sair a ganhar dos clubes onde passou. A estatística mostra que, nas 16 ocasiões em que saiu dos clubes onde que exerceu as funções de treinador, em metade delas (oito vezes) deixou o cargo após derrotas/não atingir os objetivos, das quais cinco com a época ainda a decorrer (rescisão por mútuo acordo após iniciativa do clube).

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Avaliação do Polígrafo:

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