Na já célebre audição na comissão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, Joe Berardo chocou o país. O comendador  foi unanimemente criticado pela sua postura alegadamente arrogante e desafiante. O sonoro “Ah, ah, ah” com que respondeu a uma pergunta da deputada do CDS Cecília Meireles foi a gota de água que fez eclodir uma tempestade mesmo em cima da cabeça de Berardo, que agora até a sua comenda tem em risco.

Esta semana, 13 dias depois do sucedido, o empresário madeirense decidiu, finalmente, quebrar o silêncio a que se remeteu desde esse dia. Fê-lo através de um comunicado. E o que disse Berardo? Que é  “o bode expiatório” de “todos os males do sistema financeiro português desde 2007” - e que recusa aceitar “passivamente” esse rótulo.

Mais: que durante 5 horas e 30 minutos foi “sujeito a um intenso interrogatório regido por regras políticas que não domino, nem quero dominar”. O “mea culpa” surgiu mais à frente: “Tenho de admitir que no calor da discussão me excedi, dando algumas respostas impulsivas e não devidamente ponderadas”. Quais foram essas respostas? Berardo não as identificou.

Ainda assim, afirmou que, “por respeito ao Parlamento e aos Portugueses”, decidiu ser claro na sua intervenção: “Teria sido mais fácil para mim não responder às perguntas e esconder-me em ataques de 'amnésia seletiva’, como tem acontecido com frequência nesta comissão. Não o fiz.”

Berardo
O Berardo-Gate foi o tema principal do programa semanal de Ricardo Araújo Pereira na TVI

Mas será que não o fez mesmo? Será que Berardo, à imagem do que aconteceu com Vítor Constâncio e outras figuras já ouvidas no Parlamento, não sofreu também de um súbito ataque de amnésia seletiva?

A resposta é sim: também Berardo manifestou problemas de memória na Comissão de Inquérito. Deixamos quatro exemplos:

  • Afirmou que, “por ser disléxico” [SIC], não se recordava de alguns pormenores sobre os primeiros contactos com o BCP e Jardim Gonçalves;
  • Quando interrogado sobre se os bancos insistiram consigo no sentido de dar um aval pessoal a um empréstimo de 350 milhões de euros, respondeu: “Eu acho que nessa altura nem falavam disso. Não me lembro.”
  • Quando a deputada bloquista Mariana Mortágua lhe perguntou quem são os acionistas da Associação Coleção Berardo, afirmou: “Quem tem a maioria não sei, tenho que ver”. Perante a insistência de Mortágua, acrescentou: “Não sei, não me lembro de todos”.
  • Sobre a casa em que vive, Joe Berardo afirmou que se trata de um imóvel alugado e que, portanto, não lhe pertence, pagando renda pelo seu usufruto. Interrogado por Mariana Mortágua sobre o valor da mesma, afirmou não saber.

Avaliação do Polígrafo:

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