Joacine Katar Moreira foi uma das figuras mais mediáticas da campanha eleitoral para as Legislativas. A candidata do Livre, que conseguiu fazer-se eleger por um partido pequeno, tornando-se assim uma das grandes vencedoras da noite eleitoral, foi notícia por um motivo surpreendente: a insinuação falsa, imediatamente desmentida pelo Polígrafo, segundo a qual a candidata simulava - ou exagerava - a sua gaguez para conquistar a simpatia da população.

Agora que foi eleita, é notícia por um motivo mais bondoso: uma mulher negra assume um dos 230 lugares no plenário da Assembleia da República. E isto é importante porquê? Porque se a eleição de mulheres para o Parlamento já não é uma novidade, a entrada de mulheres negras é uma excepção no nosso historial parlamentar. “Estou no Parlamento desde a década de 70 e não me recordo de nenhuma deputada negra no plenário”, diz ao Polígrafo o socialista José Magalhães, um dos decanos da Assembleia, onde antes de ser deputado foi também assessor. Nesta legislatura renovou o mandato na bancada do Partido Socialista.

“Estou no Parlamento desde a década de 70 e não me recordo de nenhuma deputada negra no plenário”, diz ao Polígrafo o socialista José Magalhães, um dos decanos da Assembleia.

Mas será Joacine, investigadora de 37 anos nascida na Guiné-Bissau, a primeira mulher negra – há casos conhecidos, embora raros, de deputados negros, como Fernando Ká, pelo PS, ou Hélder Amaral, pelo CDS – eleita para a Assembleia da República?

A resposta é negativa, desde logo porque há mais duas deputadas negras eleitas no passado domingo: Beatriz Gomes Dias, bloquista, licenciada em Biologia  e nascida no Senegal há 48 anos, e Romualda Fernandes, nascida na Guiné-Bissau há 65 anos, jurista, eleita nas listasdo Partido Socialista. Também Nilza de Sena, professora, 43 anos, nascida em Moçambique, foi eleita nas listas do Partido Social Democrata na última legislatura.

Antes delas, o que se verifica é que há um enorme vazio: em democracia, antes de Nilza de Sena em 2015, nunca tinha sido eleita uma mulher negra. É preciso recuar até 24 de abril de 1974 para encontrar Sinclética Soares Santos, deputada por Angola que se notabilizou pelas suas intervenções sobre o consumo de drogas em Angola – a cronista Helena Matos descreve a sua atividade num ensaio publicado no "Observador" em junho de 2018 (pode ler aqui).

Sinclética
Sinclética Soares foi deputada na Assembleia Nacional
É preciso recuar até 24 de abril de 1974 para encontrar Sinclética Soares Santos, deputada por Angola que se notabilizou pelas suas intervenções sobre o consumo de drogas em Angola.

Nessa altura, Sinclética Soares Santos era uma das quatro deputadas à Assembleia Nacional. As outras eram Custódia Lopes, Maria de Lourdes Filomena Figueiredo de Albuquerque e Maria Ester Guerne Garcia de Lemos.

Com a nova composição do Parlamento resultante das eleições de domingo, nunca tivemos tantas deputadas: 89, mais 14 do que na legislatura anterior. Apenas quatro - pouco mais de 3% da totalidade - são negras, um número que legitima a opinião dos que defendem que ainda há um longo caminho a percorrer no que concerne à representatividade de diferentes etnias na atividade política.

Avaliação do Polígrafo:

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
Falso
International Fact-Checking Network