O alarme foi lançado na passada segunda-feira, 10, pelo bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, à saída de uma reunião com os diretores clínicos dos cinco centros hospitalares onde, até ao próximo dia 30 de Dezembro decorrerá a greve dos enfermeiros em curso desde 22 de Novembro. Em resposta à pergunta: “Pode garantir que não haja doentes a morrer por causa da greve?", respondeu: "Não posso garantir isso". E acrescentou: "Não posso garantir que alguns doentes não possam ser prejudicados e de forma complexa.”

As palavras do bastonário fizeram soar os alertas – no Governo e entre a população, preocupada com a possibilidade de a greve dos enfermeiros aos bloco de operações poder resultar em fatalidades. Foram muitos os leitores que nos últimos três dias contactaram o Polígrafo, solicitando um fact-check às declarações do Bastonário, nomeadamente no que respeita ao Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN), constituído pelo Hospital de Santa Maria e pelo Pulido Valente, o maior do país.

O Polígrafo teve acesso aos dados da atividade cirúrgica no CHLN entre os dias 22 de Novembro e 12 de Dezembro. Eis o que aconteceu.

  • Cirurgias agendadas para o período: 951
  • Cirurgias realizadas: 352
  • Cirurgias não realizadas: 599 (63%)

Apesar de a atividade cirúrgica programada ter sido claramente prejudicada pela paralisação, o mesmo não aconteceu com as cirurgias urgentes. Nesse período, foram realizadas 274 intervenções – menos 1,8% do que no mesmo período do ano passado, uma variação considerada irrelevante do ponto de vista estatístico.

carlos martins
créditos: José Caria

Perante os dados, afirmar taxativamente que estão a morrer pessoas por causada greve dos enfermeiros é manifestamente infundado. Em declarações ao Polígrafo, Carlos Martins, presidente do Conselho de Administração do CHLN, afirma que do ponto de vista abstrato se pode dizer que perante uma greve a probabilidade de as pessoas morrerem aumenta, mas na prática, garante, “tem havido bom senso por parte dos enfermeiros, que têm garantido os serviços mínimos." Ainda assim, sublinha: "Claro que ao serem desmarcadas cirurgias a qualidade de vida dos doentes diminui."

Ou seja: passados 22 dias sobre o início da paralisação, não há registo de mortes diretamente relacionadas com a mesma. “Todos os dias morrem pessoas nos hospitais, mas isso faz parte daquilo que eles são”, conclui o administrador, no que é secundado pela bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, que em declarações prestadas à revista Sábado depois de reunir com os enfermeiros-diretores dos cinco blocos operatórios em greve (CHLN, Centro Hospitalar Universitário de São João, Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, Centro Hospitalar Universitário do Porto e Centro Hospitalar de Setúbal), sublinhou que não há razões para preocupação com a eclosão de tragédias: "Em todos os hospitais, os grevistas foram e vão continuar a ir além dos serviços mínimos decretados, se for necessário, e vão continuar a permitir que se abram mais blocos operatórios, em situações imprevistas."

Avaliação do Polígrafo:

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
Falso