"Sabias que Israel proibiu a entrada de coentros em Gaza e que é assim há anos?”, questiona-se num vídeo partilhado recentemente no Instagram, numa altura em que se multiplicam “online” os conteúdos sobre a situação de guerra vivida neste território palestiniano, que se asseverou após o ataque terrorista perpetrado pelo Hamas a 7 de outubro sobre território israelita.

Em causa, segundo o protagonista do vídeo citado, está um produto que é “consumido em todo o mundo, mas é proibido em Gaza”. E que faz, por isso, parte da lista das “20 coisas mais surpreendentes que são proibidas” nesta região palestiniana. 

Assim, a partir de 2016, elabora a mesma fonte, “os chocolates, o vinagre, as batatas fritas, os jornais, as máquinas de costura, os aquecedores e até a compota” foram proibidos no país. Isto já depois de, em 2009, a mesma restrição ter sido aplicada a artigos como “livros, velas, lápis de cor, cadernos, canas de pesca, óculos, lençóis, cobertores”.

E acrescenta o protagonista do vídeo: “A massa era anteriormente proibida, mas a proibição foi levantada quando o senador americano John Kerry visitou Gaza e questionou: ‘A massa não é permitida? Estão a falar a sério?’". O mesmo não se pode dizer dos “vestidos de noiva”, ainda hoje sujeitos a essa interdição.

“Eu percebo. Israel está a defender-se do Hamas e é por isso que proíbem bens perigosos. Mas estão mesmo a dizer-me que se pode matar alguém com um punhado de coentros?”, perguntou ainda, acusando ainda Israel de “ocupação”.

Mas será que se confirma que esta lista de restrições permanece, ainda hoje, em vigor?

Em causa estão questões que surgem no seguimento do bloqueio terrestre e marítimo que as tropas israelitas têm levado a cabo, desde 2007, sobre a Faixa de Gaza, logo após o Hamas ter assumido o controlo sobre a região. Cerco esse que se intensificou, ainda mais, na sequência do referido ataque terrorista de 7 de outubro de 2023.

Em maio de 2010, a BBC News citou documentos apresentados a um tribunal israelita que forneciam mais detalhes sobre a forma como Israel estaria a levar a cabo esse bloqueio. Por essa altura, o meio de comunicação social citado escreveu sobre como “Israel nunca publicou uma lista de artigos proibidos” em Gaza, explicando que “aprova os pedidos caso a caso”. Porém, facto é que “os 1,5 milhões de habitantes” existentes na altura na região viram-se “a braços com uma grave escassez”, o que comprometeu a sua subsistência.

Nesse mesmo artigo, a BBC apresenta uma lista que apresenta as “mercadorias comerciais cuja importação para Gaza é autorizada”, à data de “abril de 2010”, com base em informações “confidenciais” fornecidas por “grupos internacionais”. A lista é bastante restrita - composta por apenas 81 artigos - e de todos os produtos referidos no vídeo citado acima, apenas três (massa, velas e cobertores) receberam permissão para entrar neste território.

Mas isto já seria uma atualização face às restrições iniciais, que também se estendiam a esses produtos - até porque, de facto, confirma-se que a proibição da importação de massa foi levantada após o senador norte-americano John Kerry ter questionado as autoridades israelitas sobre o racional na base dessa decisão. 

No mesmo artigo, Sari Bashi, diretor do grupo israelita de defesa dos direitos humanos Gisha, disse não entender por que razão a canela era “permitida” em Gaza, mas os coentros não. E questionou, lembrando como Israel justificava tais interdições com motivações de ordem securitária: “Haverá algo mais perigoso nos coentros? Serão os coentros mais importantes para a economia de Gaza do que a canela?”

Alguns meses mais tarde, em julho de 2010, noticiou-se que Israel concordou aliviar o seu bloqueio sobre a Faixa de Gaza, possibilitando que “praticamente todos os bens de consumo - desde vestuário e lápis de cor a livros e instrumentos musicais” - passariam a poder “entrar nesse território”. A partir de junho desse ano, artigos como “ketchup, chocolate, brinquedos para crianças, especiarias, papel e perfume” passaram também a poder entrar no território, bem como “colchões e máquinas de lavar roupa”.

Mas existiam exceções à regra: os artigos que fizessem parte de uma “lista negra” que incluía “armas e bens de consumo de ‘dupla utilização’” que pudessem “ter uma utilização militar”, segundo a BBC. É o caso, nomeadamente, de “fertilizantes, reservatórios de gás, equipamento de perfuração e desinfetante de água”.

O que dizer, então, do caso dos coentros? No caso dos coentros, uma nota publicada no “site” do grupo israelita Gisha, datada de janeiro de 2016, lembrou que essa restrição era passado: “Até há apenas seis anos, os coentros estavam proibidos de entrar na Faixa de Gaza. Os coentros, o chocolate, os brinquedos, certos frutos e os cadernos eram classificados como 'luxos' e a autorização de entrada destes artigos dependia da vontade de funcionários anónimos do Ministério da Defesa de Israel.”

Outra publicação mais recente, datada de junho deste ano, deste mesmo grupo, sustenta que “Israel já não restringe a entrada de alimentos em Gaza” - como os “coentros” e o “chocolate” - mas “continua a impor restrições severas” e, por vezes, proíbe a importação dos tais artigos ditos de “dupla utilização” - que, na ótica de Israel, apesar de serem destinados a uma utilização civil, “podem também ser utilizados para fins militares”. 

Porém, outro dos artigos bastante destacados no vídeo aqui analisado - os vestidos de noiva - permaneciam, à data de 2018, proibidos no território, tal como esponjas de limpeza, biberões e fraldas.

Perante estes factos, atribuímos à publicação o carimbo “Descontextualizado” no que às alegações sobre as restrições à importação de alimentos diz respeito.

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