"Os insetos são constituídos por quitina, que não é processada pelo nosso estômago, mas é um polisacarídeo muito do agrado dos carcinomas, parasitas, fungos e outros que são altamente nocivos para a saúde humana", destaca-se no Facebook, numa publicação de 29 de agosto, em que se cita o suposto cientista "Rob Schneider".

No "post" destaca-se ainda que os insetos "contêm esteroides metamórficos, especialmente ecdyesterona". Mais, garante-se que "não são adaptados a consumo humano" e que "apenas o aparelho digestivo das aves está adaptado à ingestão de insetos".

Comecemos pela origem da informação divulgada. Uma pesquisa revela que não existe nenhum cientista reconhecido com o nome referido. Rob Schneider é um ator e comediante norte-americano que, no passado dia 1 de agosto, publicou um tweet em que partilha o texto, em inglês, que surge traduzido na publicação em análise.

Não é citada qualquer fonte para as alegações partilhadas pelo artista que tem utilizado esta plataforma para disseminar informação anti-vacinas.

Contactado pelo Polígrafo, Rui Jorge, nutricionista com trabalhos académicos desenvolvidos no âmbito do consumo de insetos, garante que a informação contida no post "é um completo disparate à luz da melhor evidência científica disponível". Considera ainda que a intenção na partilha destas alegações é a de "confundir as pessoas sobre esta matéria".

Segundo o especialista, "os insetos não são impróprios para o consumo humano", já que "desde que existimos como espécie que os consumimos e continuamos a consumir em diversas regiões do mundo". Além disso, destaca o valor nutricional que podem ter: "Conseguimos deles extrair e absorver nutrientes essenciais como proteínas, gorduras e algumas vitaminas e minerais."

Em relação à quitina, substância apontada na publicação como perigosa para os humanos, Rui Jorge garante que não existe fundamento para a classificar como tal. "É verdade que a quitina apresenta resistência à digestão no organismo
humano, mas isso não significa que seja prejudicial à saúde, aliás, a famosa 'fibra alimentar' que hoje é quase do senso comum que faz bem à saúde, apresenta exatamente essa característica (resistir à digestão no organismo humano)", assinala.

O especialista em nutrição clínica destaca ainda que os insetos estão disponíveis, atualmente, em vários formatos de consumo. "Podem ser consumidos inteiros ou como ingrediente de alimentos mais processados. Por exemplo, através de farinha de inseto, que poderá ser utilizada na confeção de bolachas e afins", aponta.

Nair Cunha, engenheira especializada na produção animal, explica que os insetos comestíveis, já são conhecidos como uma "mini espécie pecuária". Ou seja, que para serem utilizados para a alimentação humana "necessitam das mesmas condições controladas (ambiente, alimentação e maneio produtivo), assim como qualquer outra espécie pecuária convencional".

Segundo a especialista, existem várias formas de processamento dos insetos antes de serem utilizados na alimentação humana. "Como ingredientes (sob a forma de farinha) ou inteiros, a metodologia utilizada para o abate e processamento dos insetos pode variar consoante a sua finalidade", indica. E acrescenta que o método mais comum de abate é a congelação, sendo muito comum proceder à desidratação dos animais "para se obter uma farinha uniforme que poder ser incorporada em qualquer tipo de formulação de alimentos e permite aumentar o valor nutricional de um produto alimentar".

Relativamente aos riscos no consumo de insetos comestíveis, Nair Cunha afirma que as espécies autorizadas para serem produzidas, utilizadas e comercializadas para a alimentação humana, foram sujeitas a uma avaliação rigorosa pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) para serem aprovadas como seguras e não causarem riscos para a saúde humana.

"Algumas espécies de insetos podem apresentar na sua composição, nomeadamente no exosqueleto, uma proteína chamada tropomiosina que pode provocar risco de alergia, estando esta proteína presente igualmente no marisco", informa. E alerta para a obrigatoriedade de colocar na rotulagem de produtos alimentares à base de insetos o respetivo aviso de potenciais reações alérgicas "aos consumidores com alergias conhecidas aos crustáceos, bem como aos ácaros do pó".

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