Donald Trump volta a estar no centro de uma polémica depois de ter sugerido, numa conferência de imprensa, que fosse testada a injeção de desinfetantes nos pulmões para matar o SARS-CoV-2, o coronavírus que causa a doença Covid-19.

“Eu vi que o desinfetante mata-o [o vírus] num minuto, um minuto. E existe uma forma de fazer algo desse género, ao injetar dentro ou quase limpando, porque chega aos pulmões e faz um número tremendo”, afirmou Trump, acrescentando que “seria interessante verificar isso”.

O presidente dos EUA também apontou para a utilização de luzes ultravioleta. Questionámos pneumologistas e imunologistas sobre se estas práticas são viáveis ou têm algum fundamento científico. E qual o impacto que teriam no organismo humano.

“Isto é um dos princípios básicos da Medicina: nunca passaria a ninguém pela cabeça administrar desinfetantes no pulmão pelas consequências de toxicidade e risco de vida que isso acarretaria”, sublinha Filipe Froes, pneumologista e coordenador do Gabinete de Crises da Ordem dos Médicos. Se a sugestão de Trump fosse aplicada, “provavelmente teríamos uma reação de toxicidade com uma pneumonia química e poderia ter consequências mais graves do que a infeção pela Covid-19”.

Se a inalação de substâncias tóxicas - como é o caso, por exemplo, da lixívia - já pode provocar um quadro de dificuldade respiratória, ao inserir estes desinfetantes nos pulmões poder-se-ia provocar “a destruição dos tecidos do pulmão. Os desinfetantes são substâncias extremamente tóxicas para um tecido que está preparado para as trocas gasosas e que não tem defesas para essa agressão química”, explica Filipe Froes, indicando que poderia ser fatal para o paciente.

“Isto é um dos princípios básicos da medicina: nunca passaria a ninguém pela cabeça administrar desinfetantes no pulmão pelas consequências de toxicidade e risco de vida que isso acarretaria”, sublinha o pneumologista Filipe Froes. Se a sugestão de Trump fosse aplicada, “provavelmente teríamos uma reação de toxicidade com uma pneumonia química e poderia ter consequências mais graves do que a infeção pela Covid-19”.

Para Luís Graça, imunologista e investigador no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa (IMM), as declarações de Trump representam “um erro clássico dos estudantes de Medicina que têm pouca experiência” e que “rapidamente tiram conclusões de algo que funciona fora do organismo para aquilo que pode funcionar dentro do organismo”. 

“Se vimos uma substância qualquer a matar bactérias e vírus in vitro, não quer dizer que nós possamos utilizar essas substâncias dentro do nosso organismo. Primeiro, porque podem não ser eficazes dentro do nosso organismo. Segundo, muito mais importante do que isso, podem fazer mais mal do que bem, causando lesões graves ao organismo”, esclarece.

Os desinfetantes comummente utilizados para higienizar superfícies têm propriedades irritantes e podem provocar lesões semelhantes às queimaduras, quer na boca, quer nas vias por onde passam. Por outro lado, o álcool etílico ou as soluções aquosas desta substância podem provocar cegueira.

“É difícil encontrar algo razoável nessa afirmação porque, normalmente, esses desinfetantes são altamente tóxicos para aquilo que nós queremos matar - que são microrganismos -, mas sê-lo-ão também para nós”, acrescenta o investigador, alertando para o perigo das declarações do presidente dos EUA. “Estas declarações de Donald Trump são extremamente perigosas, pois podem sugerir a pessoas menos atentas que utilizem desinfetantes de uso doméstico para tentar matar uma infeção, quando esses desinfetantes - que são ótimos para desinfetar superfícies -, não podem ser utilizadas no organismo porque têm efeitos muito prejudiciais”.

Apesar da utilização do termo “desinfetante”, Filipe Froes coloca a hipótese de Donald Trump se estar a referir a antibióticos. “O que ele pretende com o desinfetante nós temos, mas chamamos-lhes outro nome: são fármacos antibióticos que nós administramos para que, de uma forma seletiva, matem os microrganismos que estão a provocar a doença, mantendo a integridade e a segurança dos órgãos afetados”, esclarece o pneumologista. “Essa hipótese, numa perspetiva bondosa, significa o desenvolvimento de fármacos com as características de um antiviral”.

Na sequência das polémicas declarações do presidente dos EUA, várias empresas especializadas na produção de desinfetantes já alertaram a população para os riscos de ingerir tais produtos.

Luzes ultravioleta "dentro do corpo" poderia funcionar?

Além de sugerir a injeção de desinfetante nos pulmões, Donald Trump expressou também a ideia de utilizar luzes ultravioleta ou de alta intensidade para matar o coronavírus que causa a Covid-19. “Suponhamos que atingíamos o corpo com uma luz tremenda, quer seja ultravioleta ou apenas uma luz muito potente. E eu acho que disse que iam verificar e testar isso. E depois eu disse que suponhamos que levamos a luz para dentro do corpo, que podemos fazer através da pele ou de outra forma”, afirmou.

“Provavelmente, o grau de exposição a uma radiação ultravioleta para matar o vírus seria uma exposição que ia causar danos nas nossas células, o que torna o processo inviável”, explica Luís Graça.

A utilização de feixes de luz de alta intensidade para eliminar o SARS-CoV-2 implicaria também identificar quais as células que estão infetadas. E isso é outro problema inerente a esta sugestão de Donald Trump. “O vírus está a afetar células do epitélio respiratório. Seria muito difícil nós conseguirmos distinguir as células infetadas das células não infetadas, para conseguir ter uma ação apenas nas células infetadas, sem atuar nas células não infetadas. Isto assumindo que não há uma infeção muito disseminada, seria catastrófico se nós matássemos todas essas células”, conclui.

________________________________

Avaliação do Polígrafo:

Notificações

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.
Pimenta na Língua
International Fact-Checking Network