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Iniciativa “Arraial dos Cravos” foi cancelada porque Câmara Municipal de Lisboa recusou financiamento?

Política
O que está em causa?
Nas redes sociais, alega-se que a iniciativa Arraial dos Cravos foi cancelada porque a Câmara Municipal de Lisboa recusou financiá-la por "falta de verbas", um problema que não existiu noutras ocasiões, lembram os críticos. Apesar de fornecerem duas versões distintas, não é possível afirmar, com base na comunicação entre a organização e a autarquia lisboeta, que o evento foi cancelado exclusivamente por falta de apoio da CML.

Circula viralmente nas redes sociais desde ontem (21 de abril) a imagem que ilustra o cancelamento da iniciativa “Arraial dos Cravos”, alegadamente depois de a Câmara Municipal de Lisboa (CML) não ter financiado o evento por falta de verbas.

“A CML gastou mais de 33 milhões de euros na JMJ2023, mas alega agora falta de vergas para a organização do habitual Arraial dos Cravos, no largo do Camões, para as celebrações do 25 de Abril”; “A coincidência com um presidente de direita e a direita a subir ao poder“, escreveu-se em alguns “tweets” partilhados ao longo do dia de hoje.

Nas redes sociais da organização do evento, “Abril é Agora”, informou-se esta tarde que “o arraial de 24 de abril não pode realizar-se este ano por falta do habitual apoio da CML“, mas que, ainda assim, “na véspera do 25 de Abril cantaremos a ‘Grândola’ no Carmo, como sempre”. Lança-se ainda o apelo a “todas as organizações e coletivos comprometidos com o arraial e, a quem vier por bem, que se junte no Largo do Carmo na noite de 24 de abril”.

Ao jornal “Expresso“, Dina Nunes, elemento da organização, explicou que o único pedido de apoio à autarquia era de carácter logístico, que a Câmara costuma ceder “tendas para as associações e cedia um palco para os momentos musicais e culturais”, sendo esta colaboração essencial uma vez que os coletivos têm “muita pouca capacidade financeira“.

“O que fazem é colocar as tendas e retirá-las no dia seguinte. Foi isso que pedimos este ano e foi isso que nos foi negado“, indicou em declarações ao semanário.

Ao início da tarde, o presidente da CML, Carlos Moedas, recorreu à rede social X para sublinhar que “é falso que a CML não apoie o Arraial dos Cravos” e que, desde o primeiro contacto, foi disponibilizada ajuda para “que esta iniciativa se realizasse”.

“Continuamos disponíveis para encontrar soluções. Tal como esta, são centenas as iniciativas que estamos a apoiar para comemorar os 50 anos do 25 de Abril”, reiterou o autarca.

Contactada pelo Polígrafo, a autarquia indicou que o pedido de apoio chegou à CML “no passado dia 9 de abril à noite” para a realização do evento no dia 24 de abril, mas que, à data, “existia já um conjunto de ocupações previstas e autorizadas para o Largo do Carmo”. Nesse sentido, “ambas as entidades acordaram numa mudança de local do Arraial dos Cravos para a Praça de Luís de Camões”.

Quanto ao pedido, este incluía a “disponibilização e montagem/desmontagem de um palco e de cerca de 20 tendas, apoio a nível da higiene urbana e do som, com a disponibilização de um ponto de energia e de técnicos da Câmara Municipal de Lisboa”.

A autarquia justifica que, à data em que o pedido deu entrada, “grande parte dos meios materiais e humanos de que a CML dispõe já se encontravam comprometidos com outros eventos, agendados há vários meses e, também eles, relacionados com as comemorações do 25 de abril”, por isso, foi “comunicado à organização que só se encontravam disponíveis para cedência no dia 24 de abril um palco e uma tenda”.

Quanto ao som, a CML “tinha recebido um pré-aviso de greve dos trabalhadores-eletricistas da autarquia, o que poderia comprometer o apoio solicitado” e, por fim, o “apoio ao nível da higiene urbana foi assegurado, nomeadamente com a cedência de contentores”.

Assim, a autarquia defende ser “falso que não tenha disponibilizado ajuda ou autorização ao Arraial dos Cravos”, mas que “tal como esta, são centenas as iniciativas” que a CML apoia “para comemorar os 50 anos do 25 de abril” que já estavam “previstas, organizadas e programadas há vários meses”.

O Polígrafo contactou Dina Nunes, questionando se houve de facto um atraso no pedido de apoio logístico face a outros anos. Em resposta, Dina Nunes indicou que o pedido foi de facto feito no dia 9 de abril, mas na sequência de vários contactos anteriores feitos com a junta de freguesia de Santa Maria Maior sobre a cedência do Largo do Carmo, cuja resposta não foi, este ano, positiva.

“Contactámos em fevereiro a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior para nos disponibilizarem, à semelhança do que tem acontecido nos outros anos, o Largo do Carmo. Mas só obtivemos, depois de muitas tentativas e muita pressão, uma resposta em março, dizendo que não nos cediam o Largo do Carmo porque já estava ocupado. Portanto não tínhamos como mandar o pedido à Câmara antes porque não tínhamos espaço”, detalha.

Após entendimento do local a realizar o evento, mediante resposta afirmativa da Junta de Freguesia da Misericórdia para a cedência do Largo do Camões, foi enviado um segundo e-mail ao vereador da CML, Diogo Moura, no dia 12 de abril, solicitando apoio para a iniciativa. Dina Nunes alega não ter recebido “nenhuma resposta por parte do vereador“, mas no dia seguinte recebeu “a única resposta escrita” que a organização tem, que é a resposta Secretaria-Geral da CML.

Nessa resposta, a que o Polígrafo teve acesso, lê-se que “a CML não tem possibilidade de apoio, nem financeiro, nem logístico, como solicitado, atendendo aos inúmeros pedidos já efetuados para estas datas das comemorações dos 50 anos do 25 de abril”.

No mesmo e-mail é indicado que há “disponibilidade de materiais no âmbito das regras em vigor no que respeita ao transporte e montagem dos equipamentos e no quadro da tabela de taxas em vigor” e que a CML iria “verificar disponibilidade dos materiais indicados”.

Dina nega que tenha sido comunicado à organização que teriam um palco e uma tenda, mas confirma que foi garantida higiene urbana e que, tal como indicado pela autarquia ao Polígrafo, não foi disponibilizado apoio de som devido ao pré-aviso de greve dos técnicos.

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Avaliação do Polígrafo:

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