Embora o PAN mantenha um acordo de incidência parlamentar com o PSD-Madeira e o CDS-Madeira que estará a ser renegociado, a situação ao nível nacional é diferente, na medida em que o PSD formou uma coligação pré-eleitoral com o CDS-PP e o PPM, a nova Aliança Democrática (AD). A líder do partido, Inês Sousa Real, aponta o dedo a Gonçalo da Câmara Pereira como o principal obstáculo a um possível entendimento pós-eleitoral com a AD por considerar que o presidente do PPM não respeita os direitos das mulheres.

No âmbito de uma entrevista ao "Jornal de Notícias", publicada ontem (30 de janeiro), a deputada disse não ver "como é que é possível o PAN, sendo um partido que respeita os direitos humanos e, em particular, os das mulheres, aliar-se a uma força política que tem alguém [Gonçalo da Câmara Pereira] que entende que as mulheres não têm lugar na vida política e que acha legítimo bater numa mulher."

Para a líder do PAN "seria profundamente irresponsável" aliarem-se a "uma AD absolutamente bafienta, que não acompanha os valores do século XXI".

Mas a acusação lançada por Sousa Real sobre Câmara Pereira achar "legítimo bater numa mulher" tem fundamento?

As declarações em causa - segundo confirmou Sousa Real ao Polígrafo - foram proferidas no contexto do programa de entretenimento "Você na TV", emitido na TVI, a 24 de outubro de 2017. Estava a ser comentada a decisão do juiz Neto de Moura de não agravar a pena num caso de violência doméstica por se tratar de uma "mulher adúltera", tendo citado a Bíblia e o Código Penal de 1886 para fundamentar tal deliberação.

Nesse programa de entretenimento matutino, Câmara Pereira considerou que "o juiz tem toda a razão" porque "ela pôs os palitos [ao marido], então mamou-as".

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Confrontado pelo Polígrafo com estas declarações, e questionado sobre se considera ser legítimo agredir uma mulher, o líder do PPM defendeu que "o programa era lúdico" e foi chamado "para criar polémica".

"Criei um boneco que fosse provocador e com graça do tipo de português macho latino. Resultou e mantive as presenças durante cerca de 10 anos", justificou. Admitiu também ser "provocador, divertido e gozão", mas garantiu nunca ter ofendido ou sido "indelicado com nenhuma mulher".

Quanto ao "boneco" que terá criado para o programa, explicou: "Mas alguém quando sai do palco a representar Eduardo IV de Inglaterra achará ser Rei na vida real do século XXI? Também disse num programa que as mulheres bonitas normalmente eram burras… Porquê? Eu tão giro e elas não olham para mim. A graça era essa."

Posto isto, lamentou que essas suas afirmações tenham sido "utilizadas com maldade e parvoeira".

Contactada pelo Polígrafo, Sousa Real defendeu que, por mais que o líder do PPM estivesse a representar uma personagem, todos temos "uma responsabilidade civil e social", porque o que está em causa é "um crime que atinge mais de 20 mil mulheres todos os anos, é dos crimes mais participados em sociedade, e continua a matar mulheres".

"Parece-nos que é completamente contrário à defesa dos direitos humanos que, de forma leviana, se façam este tipo de afirmações de que, aliás, o próprio nunca se retractou. Ao final do dia podem ter como consequência a agressão a uma mulher, a legitimação da agressão a uma mulher, ou até mesmo os feminicídios", argumentou.

Na perspetiva da líder do PAN, trata-se de algo "demasiado grave para que se possa levar desta forma tão ligeira, como vimos nas afirmações que o próprio tem proferido ao longo do tempo".

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