"Inês de Medeiros - presidente da Câmara de Almada - acabou de expulsar uma cidadã durante o período de intervenção dos munícipes porque disse 'Almada colonial'. Um pleno atentado à democracia e a negação do passado racista e colonialista sobre o qual o nosso país foi construído"; "Negar um facto histórico e social. Afirmar que acabou-se o racismo e estão lavadas as consequências do colonialismo. É esta a presidente da Câmara Municipal de Almada".

Os "tweets" têm-se multiplicado nas últimas horas - e quase todos tecem duras críticas à socialista Inês de Medeiros, que retirou a palavra a uma cidadã que interveio na última reunião de Câmara em Almada, esta segunda-feira. O gatilho foi a expressão "Almada Colonial", suficiente para que a autarca ameaçasse retirar a palavra à moradora se esta não voltasse atrás naquilo que tinha dito. Críticas ao realojamento das famílias do Segundo Torrão estiveram na origem do desacato.

"Aquilo a que nós temos assistido neste processo de demolição do Segundo Torrão, e um pouco do que foi apresentado aqui, é muito da política do pós-verdade, onde os factos são ignorados. Se há uma internet que não funciona, então não há acesso à internet: isto é um facto. Se há um pátio a que as crianças não têm acesso, esse pátio não é utilizado pelos moradores: isto é um facto". O relato continua, com a moradora a acusar a Câmara Municipal de apelidar de "provisório" um alojamento que dura há "60 dias" e no qual se encontram "cinco pessoas a dividir um quarto, dez famílias a dividir uma casa de banho e com duas bocas de fogão para cozinhar".

"Este provisório vai durar quanto tempo?", questionou a munícipe, uma das últimas a intervir no período destinado aos habitantes do concelho. "Há algum prazo, alguma decisão? O plano era fazer isto em seis dias: há uma urgência para a demolição mas não há uma urgência para o realojamento", acusou a interveniente.

"Ter uma candidatura aceite não significa que estas pessoas já têm um alojamento. Onde é que estas famílias vão passar o Natal? Estas famílias têm os seus pertences depositados no armazém da Câmara há 60 dias, foram retiradas das suas casas à pressa, não tiveram tempo de arrumar as suas coisas, que estão a perder valor. Quem é que se vai responsabilizar pela perda financeira destas pessoas?", questionou.

As acusações adensaram e a autarquia foi acusada de não conhecer o interior das casas no Segundo Torrão, depois de ter afirmado que estes cidadãos estão agora em melhores condições: "Há muitas pessoas que tinham casas muito melhores do que as casas camarárias. As casas da Câmara que passaram por uma reabilitação já têm infiltrações, o elevador não funciona. Dizer que as pessoas estão em melhores condições agora é um pensamento que pode ser considerado, mais uma vez, na questão 'Almada colonial', em que as pessoas que estão sentadas num escritório podem dizer quais são as condições (...)"

A interrupção parecia inevitável: os burburinhos já se ouviam desde o início da intervenção e bastou que a palavra "colonial" fosse dita para que a socialista Inês de Medeiros erguesse o braço e elevasse a voz: "Eu peço desculpa, vou-lhe já cortar a palavra. Porque para mim a palavra 'colonial' ou 'colonialista' é um insulto e já não é a primeira vez que a senhora utiliza isso. Portanto, ou retira imediatamente a expressão que usou ou eu retiro-lhe imediatamente a palavra e assumo todas as consequências dessa minha decisão."

A moradora tentou, entre várias interrupções, sugerir uma conversa com a presidente da Câmara, que não cedeu em momento algum: "A senhora retira ou não retira a expressão da 'Almada colonial'?"

"Eu convido a senhora para nós discutirmos em outro momento", sugeriu a cidadã. "Eu não quero discutir consigo", respondeu Inês de Medeiros, uma atitude que a outra interveniente considerou "colonial", a última palavra dita antes de a presidente da Câmara ter solicitado que o microfone fosse oficialmente desligado: "Eu considero-me insultada por esta senhora. Passaram os dois minutos regimentais, acabou a intervenção."

Antes de responder a todos os munícipes, Inês de Medeiros foi interrompida pela vereadora Joana Mortágua, precisamente a propósito do tema "colonialismo":

"Retirar a palavra a um munícipe requer alguns critérios. O Centro de Estudos Sociais tem um doutoramento em pós-colonialismo e cidadania global em que explica porque é que a herança colonial e os desafios pós-coloniais das sociedades portuguesas contemporâneas têm que ver precisamente com a desigualdade, com a forma como nós abordamos os problemas da modernidade. O conceito 'Almada colonial' é um conceito teórico que tem que ver com uma herança na qual se baseia o racismo da sociedade atual."

Medeiros não se alongou na resposta, mas fez questão de recordar outras intervenções da mesma moradora, onde esta apelidava o seu executivo de "racista" e "colonialista": "Não admito que ninguém, seja porque razão for, teça considerações relativamente à ação da Câmara de Almada baseado em qualquer preconceito racista e muito menos colonialista. Da minha parte, eu livrei-me de toda a herança colonialista de Portugal há muito tempo."

Questionada pelo Polígrafo, a Câmara de Almada remeteu esclarecimentos para um "post" divulgado esta terça-feira à noite por Inês de Medeiros no Facebook, onde a presidente da autarquia pouco acrescentou ao discurso já proferido em reunião de Câmara: "Almada é uma cidade e uma população que se orgulha da sua história de luta pela liberdade e pela igualdade, do seu legado progressista e de ser um dos municípios mais multiculturais do país."

"A título pessoal, lamento ter que lembrar o meu percurso, as posições políticas e cívicas assumidas sempre com a mesma frontalidade, e o meu trabalho como realizadora. Há mais de 20 anos, em 2001, realizei o meu primeiro documentário de longa metragem sobre as heranças nefastas do colonialismo. Numa altura em que 'os estilhaços' do colonialismo, segundo a feliz designação do jornal Público, eram ainda silenciados", escreveu a autarca, remetendo para um artigo do mesmo ano.

"Neste filme as vozes e os rostos que ficam são os dos jovens portugueses vitimas do racismo quotidiano, por serem de origem africana. Por isso, seja a nível pessoal, mas sobretudo como representante máxima de Almada e das Almadenses, considerei e considero estas afirmações, cujo o único intuito é de criar um caso para as redes sociais e de se aproveitar de causas relevantes e dignas de respeito para proveito próprio, intoleráveis", continuou.

Por fim, Medeiros deixou um recado: "Nem Almada nem os serviços municipais que têm sido incansáveis no apoio e na salvaguarda das pessoas do 2.º Torrão, têm lições a receber da cidadã em causa."

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