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Alterações climáticas. Este vídeo revela processo de “semear nuvens” no Dubai?

Sociedade
O que está em causa?
A prática tem vindo a ser utilizada nos Emirados Árabes Unidos, com o objetivo de combater a seca no país, caracterizado pelo clima desértico. Mas nas redes sociais há quem a associe à ocorrência de chuvas torrenciais no Dubai. Este vídeo partilhado viralmente, que mostra um camião envolto em nuvens, exemplifica de forma fidedigna como funciona o procedimento?

“É assim que se faz cloud seeding [ato de ‘semear nuvens’] no Dubai… Na UE [União Europeia] e nos EUA  [Estados Unidos da América], pelo contrário, utilizam a geoengenharia para fazer desaparecer as nuvens e criar um clima seco”, lê-se numa publicação partilhada recentemente na rede social Twitter.

A acompanhar a afirmação, surge um vídeo que exibe o que aparenta ser um camião a circular nas ruas desta cidade, localizada nos Emirados Árabes Unidos, envolto em nuvens – dando a entender que seria desta forma, com recurso a veículos desta natureza, que se processa o ato de “semear nuvens”.

Mas será que estamos perante imagens autênticas?

Através de pesquisa reversa, foi possível identificar que os vídeos circulam online já desde, pelo menos, 4 de fevereiro deste ano. Foram partilhados, no Instagram e no TikTok, pelo utilizador “100.pixels” – que pertencerá ao criador de vídeos Mostafa Eldiasty, que se caracteriza, na primeira destas redes sociais, como sendo um diretor criativo e artista 3D e de efeitos visuais. Além disso, após ser questionado pela AFP, este indivíduo assegurou que o vídeo não é real: “O vídeo é meu, criei-o utilizando software 3D.”

Além disso, refira-se que este é um processo que funciona de forma diferente ao que é exibido nestas imagens. Segundo o Desert Research Institute (DRI), instituto de pesquisa sem fins lucrativos sediado no Nevada, tal pode ser feito através de “geradores terrestres ou de aeronaves” e, na “maioria das operações” desta natureza, com recurso a um “composto chamado iodeto de prata (AgI)”, que “existe naturalmente no ambiente em baixas concentrações”, para “ajudar na formação de cristais de gelo”. 

Assim, primeiro que tudo, “uma solução contendo uma pequena quantidade de iodeto de prata é queimada a partir de geradores terrestres ou libertada de aviões”. Depois disso, ao atingir as nuvens existentes na atmosfera, “o iodeto de prata atua como um núcleo formador de gelo para ajudar na produção de flocos de neve” – os quais, ao cair, atingem o ponto de fusão, acabando por dar origem a fenómenos de precipitação.

Processo esse que, segundo Kala Golden, gestora do programa de semeio de nuvens do Estado norte-americano de Idaho, não pode ser detetado a olho nu – seja ele feito a partir do solo ou por avião, explicou à AFP.

Sobre se este ato de “semear nuvens” pode ter sido responsável pelas recentes chuvas severas que afetaram o Dubai em abril passado, o Centro Nacional de Meteorologia dos Emirados Árabes Unidos, que supervisiona este tipo de operações no país, assegurou à CNBC que não tinha existido qualquer iniciativa dessa natureza nos momentos anteriores ou durante esse violento fenómeno meteorológico, que causou intensas cheias no país. 

Em declarações aqui citadas pelo The Guardian, Omar Al Yazeedi, diretor-geral adjunto da referida entidade pública, explicou: “Não efetuámos qualquer operação de semeio durante este evento meteorológico específico. A essência do ato de semear nuvens reside no facto de visar as nuvens numa fase inicial, antes da precipitação. A realização de atividades de semeio durante um cenário de trovoada severa revelar-se-ia inútil.”

À Reuters, Friederike Otto, professora catedrática de ciências climáticas na Imperial College, em Londres, considerou ser enganador mencionar esse processo como a causa da chuva intensa registada nesse país: “O semeio de nuvens não pode criar nuvens a partir do nada. Incentiva a água que já se encontra no céu a condensar mais rapidamente e a deixar cair água em determinados locais. Por isso, primeiro, é preciso humidade. Sem ela, não há nuvens.”

Em resumo, basta concluir que as imagens que foram publicadas nas redes sociais não representam, de forma autêntica, o processo de “semear nuvens” no Dubai.

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Avaliação do Polígrafo:

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