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Imagens de satélite da Faixa de Gaza comprovam que Israel está a cometer genocídio?

Geração V
O que está em causa?
Imagens de satélite que mostram a Faixa de Gaza comparam a iluminação noturna existente neste território em dois momentos distintos, mostrando uma redução quase total das luzes visíveis a partir do espaço. Será que isto prova que Israel está a cometer genocídio dos palestinianos?

Com as recentes notícias que revelam ataques israelitas a acampamentos ocupados por civis refugiados no sul da Faixa de Gaza, e com o post viral que inundou as redes sociais nas últimas semanas, pode-se afirmar que, tal como refere a imagem, “todos os olhos estão postos em Rafah”. O Governo de Israel continua a ser pressionado para um cessar-fogo contra o enclave palestiniano, uma demanda que rejeita até que o Hamas seja destruído. Entretanto, multiplicam-se as notícias e testemunhos que relatam violações dos direitos humanos levadas a cabo pelas forças israelitas. A maioria destas publicações tem-se revelado fundamentada, contudo, existem também algumas imprecisões.

É o caso de uma publicação datada de 28 de maio de 2024 que exibe duas imagens de satélite que capturam a Faixa de Gaza durante a noite. O texto que acompanha o post afirma que as imagens foram obtidas “por repórteres da Global Times […] no sábado” e que demonstram que “a faixa de Gaza […] está praticamente mergulhada na escuridão durante a noite devido ao corte do abastecimento de energia feito por Israel”. Acrescenta-se que, devido ao cerco total e à interrupção do fornecimento de água e eletricidade “desde segunda-feira, a crise humanitária na Faixa de Gaza tem vindo a piorar”.

Apesar de a informação fornecida ser verdadeira, esta encontra-se desatualizada e descontextualizada. O texto apresentado no post foi retirado de uma notícia do jornal chinês Global Times, datada de 14 de outubro de 2023. Como tal, a referência a “sábado” diz respeito a 14 de outubro de 2023, enquanto “segunda-feira” refere-se a 9 de outubro de 2023, dia em que foi decretado o bloqueio total do enclave em resposta ao ataque levado a cabo pelo Hamas em território israelita dois dias antes.

Tal como informa a notícia original, as imagens foram obtidas pelo “Centro Internacional de Pesquisa de Big Data para Objetivos de Desenvolvimento Sustentável” com recurso ao satélite chinês “Satélite Científico de Desenvolvimento Sustentável-1”, o primeiro equipamento deste género desenhado com o propósito de ajudar a cumprir a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

A  desinformação no que diz respeito às datas consta noutras publicações semelhantes que dizem que “o genocídio que está a acontecer em Gaza pode ser visto do Espaço”.

É também importante mencionar que estas imagens, por si só, não comprovam nem desmentem que esteja a ser cometido genocídio na Faixa de Gaza, simplesmente demonstram que não há iluminação em toda a região devido ao bloqueio generalizado e à interrupção do fornecimento de eletricidade e combustível por parte de Israel.

Contudo, ações como esta, levadas a cabo pelo governo israelita, têm agravado significativamente as precárias condições de vida dos habitantes da Faixa de Gaza. Em março deste ano, na 55.ª sessão do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, Francesca Albanese, especialista independente para os assuntos relacionados com os Direitos Humanos nos territórios palestinianos, afirmou que existem razões para acreditar que o limite que define a ocorrência de genocídio foi atingido”.

Albanese deu como exemplos os severos danos físicos e mentais causados à população, a promoção de condições de vida destinadas à sua destruição e a imposição de medidas que dificultam a natalidade.

Assim, ainda que haja “razões plausíveis” para concluir que Israel está a cometer genocídio deliberado na Faixa de Gaza, é descontextualizado afirmar que as imagens de satélite obtidas sobre este território comprovam a ocorrência deste crime, não só devido às datas, mas também por não demonstrarem, por si só, a existência dessa eliminação do povo palestiniano.

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Geração V

Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “Geração V – em nome da Verdade”, uma rede nacional de jovens fact-checkers. O projeto foi concretizado em parceria com a Fundação Porticus, que o financia. Os dados, informações ou pontos de vista expressos neste âmbito, são da responsabilidade dos autores, pessoas entrevistadas, editores e do próprio Polígrafo enquanto coordenador do projeto.

*Texto editado por Marta Ferreira.

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Avaliação do Polígrafo:

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