"São apenas quatro, e são uma ínfima amostra de uma das muitas obscenidades que a agroindústria que deixámos aqui instalar produz. E são também apenas quatro fotos das centenas que se poderiam tirar em todas as explorações. São toneladas e toneladas de comida em perfeitas condições que são atiradas para o lixo todos os dias", destaca-se do longo texto de uma publicação com mais de 1700 partilhas no Facebook.

post foi partilhado originalmente no grupo "FALA - Fórum do Ambiente do Litoral Alentejano" e mostra quatro imagens de pilhas de legumes depositados num terreno a céu aberto.

As imagens são autênticas?

Questionado pelo Polígrafo, Luís Rocha, autor da publicação, garante que as fotografias foram captadas no Concelho de Odemira. "Estas fotos foram tiradas num local fora das explorações onde são despejadas toneladas de vegetais com frequência quase diária. Dentro das explorações acontece o mesmo e em quase todas, senão todas", afirma.

A Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur (AHSA), contactada pelo Polígrafo, identifica as fotografias que circulam nas redes sociais. "As imagens foram captadas no local de descarga de alimento que é depois distribuído pelos animais de um produtor nacional que detém mais de 1.000 animais (entre ovelhas, porcos e vacas), com necessidades de alimentação diária", esclarece a mesma fonte.

Segundo a AHSA, "o detentor da exploração animal recolhe, diariamente, na exploração da Camposol, o produto excedente e que não é levantado pelas instituições que a empresa apoia todos os dias – instituições de apoio a reformados e idosos, instituições de ensino e, ainda, instituições de solidariedade social, como é o caso do Banco Alimentar, entre outros".

"O produto excedente – e que, como referido, não é direcionado para a distribuição ou recolhido pelas instituições – é doado para alimentação animal. Falamos de animais que são alimentados, diariamente, com estes subprodutos, essenciais, por exemplo, durante os períodos em que existe escassez de alimento natural (erva/pasto). Com estas doações e com o aproveitamento quase total destes subprodutos é possível alcançar taxas de desperdício próximas de zero”, garante a associação de agricultores.

Questionado pelo Polígrafo sobre a situação reportada nas redes sociais, o Ministério da Agricultura afirma não ter recebido qualquer denúncia idêntica, mas explica que "a montante da cadeia de valor agroalimentar ocorrem perdas de produto, que não têm necessariamente de ser desperdício, que dependem do uso final que se dá aos excedentes".

"É importante que se esclareça que as perdas das culturas agrícolas são, em primeiro lugar, um prejuízo para os agricultores e para os transformadores agroindustriais, ou seja, é uma situação que os mesmos têm todo o interesse em evitar, uma vez que o seu objetivo é comercializar os produtos", alerta o ministério liderado por Maria do Céu Antunes.

Segundo a mesma fonte, "a incapacidade de escoar produtos pode acontecer quando os mesmos não têm aceitação no mercado, devido ao seu calibre ou qualidade, quando há oscilações de mercado, por falta de procura ou por questões sanitárias".

"As imagens não permitem concluir do que estamos a falar, contudo, quando existem perdas, é costume dar-lhes um destino, que pode passar pela doação a instituições sociais, alimentação animal, combustagem, entre outras", refere o Ministério da Agricultura. "O que nunca poderá ocorrer é o abandono e a deposição desses produtos, em violação da legislação aplicável à gestão e destino dos resíduos", conclui a tutela.

Também Paulo Lucas, da Associação Zero, refere que, nos termos do Decreto-Lei n.º 102-D/2020, de 10 de dezembro, que aprova o regime geral da gestão de resíduos, são proibidos o "abandono de resíduos, a eliminação de resíduos no mar e a sua injeção no solo, a queima a céu aberto, bem como a deposição ou gestão não autorizada de resíduos, incluindo a deposição de resíduos em espaços públicos".

"Caso os produtos agroalimentares não se encontrem próprios para consumo, o que não parece ser o caso, podem ser utilizados na alimentação animal ou, em último recurso procederem à sua compostagem em local adequado", esclarece o representante da Zero.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Verdadeiro: as principais alegações do conteúdo são factualmente precisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Verdadeiro" ou "Maioritariamente Verdadeiro" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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