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Imagem viral de indivíduo no Metro de Lisboa mostra-o a carregar um Kirpan, objeto religioso dos sikhs?

Sociedade
O que está em causa?
Tornou-se viral nas redes sociais uma imagem que mostra um indivíduo com o que parece ser uma arma à cintura, no Metro de Lisboa. Essa imagem é real? O Polígrafo verifica.

A imagem começou a circular nas redes sociais (do X ao Facebook) no dia 7 de maio, em alguns casos com a indicação de que teria sido captada dois dias antes, pelas 21h59, na estação de Sete Rios da linha azul do Metro de Lisboa. Exibe um indivíduo com a lâmina uma faca à mostra, a sair do interior do casaco, e rapidamente se tornou viral.

Logo no dia seguinte, a página do Chega no X partilhou a mesma imagem, com um círculo verde a chamar a atenção para a faca, declarando o seguinte: “Como é possível, em pleno metro de Lisboa, um indivíduo indostânico andar com uma faca daquele calibre à vista de todos? É hora de pôr fim a isto. Só o Chega tem a coragem para o fazer!”

Perante o tweet do partido liderado por André Ventura (que também difundiu a imagem no X e no Facebook), surgiram comentários acusatórios de “propagação de ódio e xenofobia através de informação maliciosamente alterada”, uma vez que a faca que surge na imagem seria, na realidade, um “kirpan“.

 

Confirma-se que a imagem é real?

Em resposta ao Polígrafo, a empresa Metropolitano de Lisboa confirmoa ter detetado “a situação referida, através do circuito interno de televisão, tendo encaminhado a ocorrência para as autoridades para a respetiva investigação”. A imagem é portanto real e foi captada no dia 5 de maio, às 21h59, como referido na publicação inicial.

Por sua vez, a Polícia de Segurança Pública (PSP) informa que “não tem conhecimento de qualquer denúncia relativa à situação em apreço”, mas esclarece que “apesar de o ‘kirpan’ ser um adereço religioso e cultural da comunidade Sikh, o porte deste objeto é alvo de diversas referências bibliográficas que, quanto à sua utilização, associam este objeto a um instrumento de defesa pessoal”.

A autoridade indica que, embora “especialmente conotado com uma praxis religiosa, o ‘kirpan’ sempre teve associada a suscetibilidade de utilização enquanto instrumento de agressão (embora, por sacro desígnio, dirigida a quadros de legítima defesa)”.

Quanto à dimensão do objeto, “mesmo tendo uma lâmina com comprimento inferior a 10 centímetros, pode ser incluído na definição de arma branca, uma vez que não tem como finalidades as recriações históricas, o colecionismo, ou utilização em artes marciais (artigo 3.º, número 2, alínea f) do Regime Jurídico das Armas e Munições)”. A PSP avisa também que “o porte de objetos com lâmina, ainda que com comprimento inferir a 10 centímetros, em locais públicos, é proibido, a partir do momento em que o seu detentor não tenha uma justificação admissível para esse porte”.

Perante situações como esta, “a PSP procede à identificação do detentor do objeto e apreensão do mesmo, sendo alvo de peritagem”. Após o que é “elaborado o respetivo expediente e encaminhado para o Ministério Público”.

Conclui ainda que “pode, ou não, haver lugar à detenção do portador do objeto, consoante o enquadramento que for dado a esse mesmo objeto”.

O Kirpan: um objeto religioso para a comunidade Sikh

Para perceber que objeto é este e o que significa, o Polígrafo contactou Carla Grandela, advogada que em 2008 defendeu um indivíduo da comunidade Sikh. Na altura, a polícia portuguesa não acusou o homem por este utilizar o kirpan que, para os seguidores da fé Sikh, é considerado um objeto sagrado com significado religioso.

Em declarações ao Polígrafo, Carla Grandela explica que é um objeto carregado pelos sikhs que costuma estar por dentro da roupa e que está integrado nos “5 K” dessa religião. “Julgo que em Portugal foi ajustado o tamanho às normas legais”.

Grandela, que trabalha há cerca de 20 anos com esta comunidade, afirma que nas últimas semanas tem notado uma mudança de comportamento em relação a estes indivíduos que estão em Portugal há, pelo menos, duas décadas. “Havia respeito pelas pessoas e agora as pessoas parece que têm medo. Nestes últimos tempos, houve uma mudança muito grande. Acho que na últimas três semanas que se passaram”, conclui.

O Polígrafo deslocou-se ainda ao Templo de Gurdwara Sikh, em Odivelas, tendo falado com membros da Comunidade Sikh de Portugal. Os crentes cumprem várias regras e têm cinco símbolos religiosos, os denominados “5 K”.

O primeiro é o cabelo, ou Kesh, que não deve ser cortado pois é entendido como sagrado. Por esse motivo, costuma ser coberto por um turbante – que pode ter até 10 metros – enrolado em torno da cabeça, mantendo o cabelo no seu interior.

O segundo é um pente que tem de ser em madeira, a Kanga, que é mantido dentro do turbante a segurar o cabelo. Depois existe a Kaccha, uns calções utilizados no interior da roupa, sendo mais curtos para as mulheres e um pouco maiores para os homens.

O quarto símbolo é a Kara, um pulseira de aço que representa o ferro que se usa geralmente no pulso direito. Por fim, o Kirpan que é uma adaga curva ou uma pequena espada que pode ser utilizada sobre a roupa ou guardada no seu interior. Em Portugal, por “respeito às regras“, o objeto foi adaptado em termos do tamanho permitido por lei e é mantido dentro da roupa, indicou ao Polígrafo a Comunidade Sikh de Portugal.

Os cinco símbolos andam diariamente com os sikhs, incluíndo o Kirpan que representa “coragem” para enfrentar o dia-a-dia, não servindo “como arma”. “Utilizamos em cerimónias, quando entregamos a comida ao guru espiritual, que é vivo, e fazemos uma ‘toca’ [como uma benção]”, revelou ao Polígrafo Prince, um dos elementos da comunidade.

Este indicou ainda que os sikhs devem orar duas vezes por dia e regem-se por fazer “o bem”, “não fazer mal a ninguém”, “não enganar ou falar mal de alguém”, entre outras regras que, caso não sejam cumpridas, levam à ostracização da religião.

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Avaliação do Polígrafo:

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