“A canalha pretende que os cidadãos acreditem na Justiça e nos políticos, mas todos eles nos dão razões de sobra para não acreditar nem respeitar nenhum deles.” Esta é a primeira frase da mensagem alegadamente publicada num panfleto datado de dia 25 de abril de 1924.

Na imagem em que se vê, alegadamente, uma das primeiras páginas desse panfleto satírico lêem-se ainda três questões: “Como é possível que os crimes de homicídio, pedofilia e corrupção prescrevam? Como é possível que não haja uma legislação clara e rigorosa sobre o enriquecimento ilícito? Como é possível que as relações pessoais entre juízes ou entre instituições contaminem (impunemente) o funcionamento da justiça?”.

Em várias publicações das redes sociais alega-se que a imagem partilhada corresponde ao editorial da primeira edição do jornal "A Corja", um “jornal que tinha sede na Travessa das Mercês 31, em Lisboa, e que não deixa de expressar o simbolismo da mesma data, mais de meio século depois”.

Mas será mesmo assim?

Não. Uma análise ao grafismo da publicação e uma visita ao Arquivo Social de História para consultar o panfleto original permitiram ao Polígrafo concluir que a imagem em circulação foi manipulada.

Em primeiro lugar, um olhar atento consegue perceber que o tipo de letra utilizado no cabeçalho da página é diferente do tipo de letra do texto. Este é o primeiro sinal de que a imagem foi manipulada. Além disso, as expressões adotadas e os temas abordados remetem para um estilo de escrita mais atual.

Para aferir a autenticidade da imagem, o Polígrafo visitou também o Arquivo de História Social do ICS para consultar o panfleto original. Ao folhear “A Corja” é fácil confirmar que a página em circulação é falsa, dado que o texto original difere do suposto editorial partilhado nas redes sociais.

No texto original, significativamente mais curto do que o da imagem manipulada, pode ler-se o seguinte: “Esta publicação não será uma fonte de ódios e desalentos. Vem pugnar pela Justiça, exaltando-a no ideal da Pátria. Contundente e impiedosa contra os que da política, da profissão, da fé fazem escudo para as suas ambições devoradoras, para os seus egoísmos bestiaes, será satisfeita quando houver de prestar homenagem aos que por suas virtudes honrarem a Pátria”.

Por fim, o Polígrafo leu o panfleto na íntegra e não encontrou o texto da imagem manipulada em nenhuma das páginas nem detetou a utilização do termo “enriquecimento ilícito”.

Em suma, o panfleto “A Corja” existiu, mas a imagem de uma suposta primeira edição que circula nas redes sociais foi manipulada e o seu conteúdo não corresponde ao da publicação original.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Adulterado: conteúdos de imagem, áudio ou vídeo que tenham sido editados ou sintetizados para além dos ajustes de clareza ou qualidade de formas que podem induzir as pessoas em erro; esta definição inclui emendas, mas não excertos dos conteúdos multimédia ou a apresentação de conteúdos multimédia fora do contexto; ao abrigo dos nossos Padrões da Comunidade, também removemos determinados vídeos manipulados produzidos por inteligência artificial ou aprendizagem automática e que provavelmente induziriam uma pessoa comum a acreditar que o interveniente do vídeo proferiu palavras que realmente não disse.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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