“Sou doente oncológico e, como testemunha a carta em anexo, no dia 15 de outubro de 2019 recebi a marcação de uma consulta de Dermatologia para o dia 8-1-2021.  Esta é a política do SNS que o Costa e a Marta Temido defendem, isto é, esperar que as pessoas morram para reduzir as listas de espera”, pode ler-se na mensagem que o doente enviou ao Polígrafo.

José Maria Pires, consultor imobiliário, tem 56 anos e foi diagnosticado com cancro da próstata em março de 2019. “Não tive os sintomas normais, como ir muitas vezes à casa de banho. Descobriu-se através das minhas análises: tinha um valor de PSA muito alto, superior a 10”, diz ao Polígrafo. PSA significa “Antigénio Específico da Próstata” e a análise do PSA total é uma das formas de diagnóstico do cancro deste órgão.

A médica de família, ao deparar-se com as análises do doente, encaminhou-o para um urologista no Hospital de Santa Maria. “Na altura, o urologista disse-me que o meu nível de PSA já era sintoma de tumor. Fiz testes mais profundos e foi detetado. Contudo foi-me dito que estava numa fase pouco preocupante e que dali a dois, três meses, voltávamos a fazer exames”, explica.

O problema tornou-se, porém, galopante: "Acabou por se desenvolver muito rapidamente. Na altura estava à espera do resultado de uma ressonância magnética que tive de fazer no privado visto que não consegui fazer no Santa Maria. O meu médico disse que só existia um médico a fazer este tipo de ressonância magnética no Hospital..."

Do diagnóstico à cirurgia passou pouco tempo: “No final de março fui operado. A recuperação foi rápida, até pelo procedimento que foi, que é pouco invasivo e inovador cá em Portugal.” A intervenção foi feita a partir de três pontos de acesso no abdómen, sendo um deles no umbigo, por onde terá sido retirada a próstata com o tumor maligno. Por volta do verão, José Pires apercebeu-se que alguma coisa não estava bem: “Reparei que estava com uma infeção no umbigo. Estava vermelho, em sangue vivo, com algum corrimento”, conta.

“Marquei consulta com o urologista e ele encaminhou-me para Dermatologia. Passadas duas semanas, recebi a carta com o agendamento da consulta para 2021. Entretanto tenho posto pomadas e higienizado a zona. Mas vou marcar uma consulta no particular para ficar descansado. Não vou ficar até 2021 à espera”, conclui.

O Polígrafo confirmou a autenticidade da carta com o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHLN), cuja direção clínica preferiu não abordar o caso em concreto por não comentar publicamente casos clínicos individuais, "mas sim o contexto em que estão inseridos."

Ao Polígrafo, fonte oficial do hospital remeteu um esclarecimento por escrito em que se explica que "a Dermatologia do CHULN presta cuidados a doentes de norte a sul do País e esta é uma das especialidades com maior pressão de marcação de consultas, que acumula com uma grande resposta na área dos rastreios." O CHULN integra dois hospitais em Lisboa: o Hospital de Santa Maria, no Campo Grande, e o Hospital Pulido Valente, na Alameda das Linhas de Torres.

O Polígrafo confirmou a autenticidade da carta com o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHLN), cuja direção clínica preferiu não abordar o caso em concreto por não comentar publicamente casos clínicos individuais, "mas sim o contexto em que estão inseridos."

"Só nos rastreios de teledermatologia e nos primeiros nove meses deste ano, por exemplo, o CHULN recebeu 4339 pedidos de agrupamentos de centros de saúde de todo o país, (...) o maior número de toda a Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo. Mas mesmo com essa pressão de pedidos, a taxa de resolução dos rastreios de teledermatologia no CHULN é de 83%, muito acima da média nacional e da média na Região de Lisboa e Vale do Tejo", sublinha a unidade hospitalar na resposta enviada.

Relativamente às consultas presenciais de Dermatologia, o hospital garante que se está a fechar a lista de espera de 2018 até ao final deste ano. "Os utentes com pedidos de 2018 de Dermatologia estão a ser contactados para realizarem consultas ainda este ano e as que se mantenham marcadas para 2020 serão situações residuais, nomeadamente a pedido do próprio doente", conclui.

Atualização: Foi-nos enviado por parte do CHULN um pedido de destaque para o facto do caso relatado no artigo não corresponder a "uma consulta de seguimento na área oncológica" mas sim a "um outro episódio clínico, referenciado para Dermatologia e com atribuição de uma prioridade diferente da que é dada a doenças oncológicas". Na nota enviada ao Polígrafo, sublinha-se ainda que o serviço de Dermatologia do CHULN "vai acabar o ano com a lista de espera de 2018 praticamente resolvida e que o doente em causa e outros casos marcados em 2019 que tinham prazos para consultas mais alargados já estão a ser reagendados para o início de 2020, mesmo em situações não-prioritárias".

Avaliação do Polígrafo:

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