Os autores do texto propagado pelas redes sociais asseguram que o A25-BIS-DR2 é “uma sequência de aminoácidos que só existe num único povo”, o português, algo que “obriga a que a História seja reescrita”.

“O A25-BIS-DR2 é único. Só existe nos lusitanos. Não existe em mais nenhum povo do mundo. O nosso código é diferente dos outros povos mediterrâneos e é único e o mais antigo à face da Terra”, pode ler-se no artigo. É ainda feita referência à combinação A26-B38-DR13, definida como sendo alegadamente “o gene mais antigo da Humanidade”. 

ADN

Estas alegações têm fundamento científico?

Não há um gene português. Para tal acontecer, seria preciso que tivesse surgido na população portuguesa e, a partir dela, se tivesse espalhado por todo o mundo. Não existe isso. Aliás, não temos possibilidade de afirmar isso com confiança”, responde Paulo Rodrigues Santos, investigador no Instituto de Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, questionado pelo Polígrafo, salientando que ainda hoje “há discussões sobre a origem do homem nas populações africanas”.

As alegações veiculadas no texto em causa têm por base um artigo científico sobre o “parentesco entre bascos, portugueses, espanhóis e argelinos estudado por frequências alélicas HLA e haplótipos”, publicado em 1997. Nessa investigação foram analisadas e comparadas sequências de histocompatibilidade genérica de diferentes populações da Península Ibérica, com o objetivo de identificar quais as melhores compatibilidades para a realização de transplantes.

Com a participação de dois investigadores portugueses, no estudo indica-se que “os portugueses têm uma característica única entre as populações do mundo: uma alta frequência de HLA [ndr: sigla inglesa para antígeno leucocitário humano] A25-B18-DR15 e A26-B38-DR13, que pode refletir um efeito fundador ainda detetável oriundo dos portugueses ancestrais, por exemplo oestrimnios e conios”.

Rodrigues Santos, um dos autores do trabalho, explica ao Polígrafo qual foi o intuito da análise: “O nosso interesse era essencialmente conhecer as bases genéticas das populações que eram candidatas a transplantes. Portanto, precisávamos de conhecer os dadores de órgãos, as características genéticas dos recetores e encontrar os melhores dadores para esses recetores”.

Rodrigues Santos explica ao Polígrafo qual foi o intuito da análise: “O nosso interesse era essencialmente conhecer as bases genéticas das populações que eram candidatas a transplantes. Portanto, precisávamos de conhecer os dadores de órgãos, as características genéticas dos recetores e encontrar os melhores dadores para esses recetores”.

Estes haplótipos, combinação de alelos adjacentes que fazem parte do mesmo cromossoma, normalmente são passados em conjunto de geração para geração. Ou seja, os conjuntos são herdados na totalidade, sejam oriundos do pai ou da mãe. Os genes de HLA são responsáveis pela produção de proteínas do sistema imunitário e, por isso, frequentemente investigados ao longo dos tempos.

Assim, a informação disponível atualmente é diferente da existente aquando da publicação do estudo. Na altura, os investigadores colocaram a hipótese de existir um efeito fundador na difusão deste conjunto genético. “O que diz o artigo é que, entre as populações ibéricas, aquela combinação aparece com maior frequência na população portuguesa, embora já tenha sido estudada no Brasil e nos EUA. Isto sugere que possa haver um efeito fundador, ou seja, pode ter sido levado para lá. Agora, o que acontece é que os dados atuais mostram que até é mais frequente nos EUA, no Brasil e na Rússia do que em Portugal”, sublinha Rodrigues Santos. Ou seja, o conhecimento atual refuta a hipótese levantada em 1997.

“O que diz o artigo é que, entre as populações ibéricas, aquela combinação aparece com maior frequência na população portuguesa, embora já tenha sido estudada no Brasil e nos EUA. Isto sugere que possa haver um efeito fundador, ou seja, pode ter sido levado para lá. Agora, o que acontece é que os dados atuais mostram que até é mais frequente nos EUA, no Brasil e na Rússia do que em Portugal”, sublinha Rodrigues Santos.

Por sua vez, Hélder Spínola, professor e investigador do Laboratório de Genética Humana da Universidade da Madeira, ressalva que “uma alta prevalência não significa que seja exclusivo”, uma vez que “estes genes existem em todas as populações e em todos os indivíduos da espécie humana”. Numa base de dados de carácter mundial é possível verificar que as combinações dos haplótipos A25-B18-DR15 e A26-B38-DR13 foram já identificadas em vários países do mundo.

Também a afirmação de que “o A26-B38-DR13 é o gene mais antigo da Humanidade” não tem fundamento. “Seria incorreto dizer que é o gene mais antigo”, considera Spínola, acrescentando que, quanto muito, poderia ser identificado como uma “característica genética que seria bastante antiga”. No entanto, para determinar essas combinações ancestrais seria necessário estudar o ADN das populações pré-históricas, seja através de “ADN retirado de ossos de fósseis bem preservados ou de múmias”. Esse não foi, porém, o intuito do artigo científico.

Hélder Spínola ressalva que “uma alta prevalência não significa que seja exclusivo”, uma vez que “estes genes existem em todas as populações e em todos os indivíduos da espécie humana”.

Detecta-se ainda um outro erro no artigo que circula nas redes sociais, logo na primeira frase. “O gene BIS nem sequer existe”, indica Spínola. “Os genes HLA nunca tiveram esse tipo de código. A nomenclatura é definida por uma letra, que significa o gene - neste caso o B representa o gene B, o gene HLA B - e depois um código numérico”.

O mito do “gene lusitano” já existe desde 1997

Quando o artigo científico foi publicado, em 1997, os investigadores foram surpreendidos pelo interesse dos órgãos de comunicação social nas conclusões do estudo. “A dada altura começaram a ser ditos muitos disparates: ‘há um gene português’, ‘afinal está provado que há um gene português’, ‘nós somos únicos no mundo’”, lembra Rodrigues Santos. A equipa de cientistas foi obrigada a esclarecer o resultado final da investigação, mas a informação enviesada (ou extrapolada) continuou a ser propagada até aos dias de hoje.

“Há temas que têm de ser olhados sempre com muito cuidado. Há ideias que podemos pôr de lado de imediato. Relativamente a outras, o tempo vai trazendo mais informação, mais tecnologia e mais conhecimento”, sublinha o investigador, alertando para o interesse de movimentos extremistas neste tipo de informações.

O estudo foi publicado há mais de 20 anos e a evolução da ciência, tanto ao nível do conhecimento, como da tecnologia, não pode ser ignorada quando se analisam algumas das afirmações lá plasmadas. “1997! Estamos a falar dos primórdios dos primórdios da caracterização dos genes HLA em termos mundiais, nas várias populações”, realça Spínola. “Desde então muitas populações foram caracterizadas, embora haja muito trabalho por fazer”.

Apesar de esta investigação ter sido realizada com a tecnologia mais avançada existente na época, como explica Rodrigues Santos, a evolução dos últimos anos permite uma análise muito mais precisa da composição genética da população. “Hoje sequenciam-se genomas inteiros e estes genes são completamente sequenciados”, conclui.

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Avaliação do Polígrafo:

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