A resposta à pergunta de partida é sim. De facto, há cidadãos ingleses a fazer terapia para lidar com os efeitos nocivos do Brexit, previsto para o próximo dia 29 de Março.

Tudo começou com um estudo conduzido por Emmy Van Deurzen, uma professora de psicoterapia na Universidade de Middlesex, grande adepta da manutenção do Reino Unido na União Europeia.

Na sua investigação, conduzida junto de uma amostra de 1300 pessoas que votaram “remain” no referendo que decidiu a saída da União Europeia, a professora concluiu que as palavras mais utilizadas pelos “traumatizados do Brexit” para definirem o seu estado de espírito foram as seguintes: “devastado”, “zangado”, “deprimido”, “traído” e “envergonhado”.

Perante o cenário que encontrou, Van Deurzen não teve dúvidas de que aquelas pessoas – e muitos milhares de outras – precisavam de aconselhamento profissional, de modo a gerir as suas emoções durante um processo que seria – que está a ser – duro e, por isso, passível de desequilibrar ainda mais indivíduos que já não se encontravam bem.

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Um estudo conduzido entre 1300 apoiantes da manutenção do Reino Unido na UE teve resultados preocupantes

No estudo, que foi publicado no site da British Psychological Society (pode lê-lo aqui), sublinha-se que o Brexit atingiu a população no âmago da sua identidade e continua a dominar o seu dia-a-dia: “Algumas pessoas estão em choque e não querem acreditar no que lhes está a acontecer.”

Foi o desespero que encontrou nas pessoas analisadas – um desespero que se estende, segundo a investigação, aos 3,6 milhões de cidadãos estrangeiros que vivem no Reino Unido, um parte dos quais “está a pensar em abandonar o país” – que motivou Van Deurzen a avançar, juntamente com um grupo de cinco colegas, com um projeto voluntário de consultas de psicoterapia dirigido a estas pessoas.

Foi dado um nome à iniciativa: chama-se Existential Academy e o seu site pode ser consultado aqui. O trabalho, que basicamente consiste em seis sessões de psicoterapia por cada paciente, já deu muitos frutos. Prova disso é esta reportagem sobre a sua atividade, transmitido pela estação de televisão francesa France TV.

Portugueses estão com medo

Preocupados com a possibilidade real de as suas vidas se transformarem por completo, os portugueses que residem no Reino Unido decidiram, sob a égide da associação Migrantes Unidos enviar uma carta aberta ao primeiro-ministro, António Costa, ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. A ideia é que os principais políticos nacionais juntem esforços aos dos seus congéneres europeus no sentido de assegurar a assinatura de um tratado internacional que garanta os direitos dos europeus no Reino Unido, independentemente do resultado das negociações.

A carta na íntegra é a que se segue:

Estará certamente ciente da adoção por unanimidade da emenda Costa pela Câmara dos Comuns britânica no dia 27 de fevereiro. Esta emenda foi fortemente apoiada pelos "the3million" e "British in Europe", e requer do primeiro-ministro:

“Que procure, o mais rapidamente possível, um compromisso conjunto Reino Unido-União Europeia de adotar a segunda parte do Acordo de Saída ("Withdrawal Agreement") sobre os Direitos dos Cidadãos e assegurar a sua implementação antes da saída do Reino Unido da União Europeia,independentemente do resultado das negociações sobre os outros aspetos do Acordo de Saída."

Encorajados pela rara unidade de propósito sobre os direitos dos cidadãos demonstrada pelo Parlamento do Reino Unido, escrevemos a Donald Tusk, copiando todos os Chefes de Estado da UE, para apelar a uma ação positiva recíproca a nível da União Europeia antes da reunião do Conselho Europeu de março.

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Concordamos que a melhor maneira de proteger os direitos de quase cinco milhões de cidadãos do Reino Unido na Europa e da União Europeia no Reino Unido é através do Acordo de Saída (WA), apesar das suas deficiências. Não estamos a pedir a negociação de um mini acordo fora do WA. O que estamos a pedir é que a União Europeia e o Reino Unido tomem as medidas necessárias para planeamento de contingência para garantir que os direitos dos cidadãos sejam devidamente protegidos em caso de não acordo. A única maneira de conseguir isso é através de um tratado internacional que abranja a parte dos direitos dos cidadãos da WA e seus mecanismos de execução. É claro que tal tratado deve ser implementado nos termos do Artigo 50 e, portanto, antes da data em que o Reino Unido deixa a UE.

Esta opção tem a vantagem vital de proteger os cidadãos da União Europeia no Reino Unido através de um tratado internacional, em vez de submetê-los à potencial erosão dos seus direitos por futuros governos britânicos. É também um resultado muito melhor para os cidadãos britânicos na União Europeia do que uma combinação de 27 soluções nacionais diferentes que tentem, mas acabem por falhar, reinventar a roda (o Acordo de Saída).

No caso de o Acordo de Saída ("Withdrawal Agreement") ser rejeitado no Parlamento do Reino Unido a 12 de Março, solicitamos que esta proposta seja discutida na reunião do Conselho Europeu de 21/22 de Março e que seja permitido que um representante dos "the3million" e dos "British in "Europe"se dirija ao Conselho Europeu nessa reunião.

Com os nossos melhores cumprimentos
Em nome dos "the3million" e "British in Europe"

Avaliação do Polígrafo:

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