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Há indícios estatísticos de possível confusão entre AD e ADN nos boletins de voto?

Política
O que está em causa?
Uma das grandes surpresas da noite eleitoral - que levanta dúvidas - foi o crescimento de 900% do partido liderado por Bruno Fialho, o ADN. Durante a ida às urnas, Luís Montenegro alertou para uma possível confusão nas siglas e pediu à Comissão Nacional de Eleições (CNE) um esclarecimento devido a "inúmeros relatos" de votos por engano. Agora que são conhecidos os resultados, é possível identificar indícios estatísticos de uma possível confusão?

A semelhança entre as duas siglas, a AD, coligação que une o PSD, CDS-PP e PPM, e o ADN, partido liderado por Bruno Fialho, foi assunto ainda durante a campanha (28 de fevereiro) quando Luís Montenegro, no final de um discurso em Évora, quis explicar que a Aliança Democrática não era o Alternativa Democrática Nacional.

Já no dia da ida às urnas (10 de março), a AD voltou a abordar aquele que se tornou um potencial problema. Alertando para o facto de ter recebido “inúmeros relatos” de confusão com o ADN, a AD apelou a que a CNE esclarecesse o eleitorado, mas, em resposta, a comissão assegurou que esses eram casos “muito pontuais” e reiterou a normalidade com que decorria o sufrágio.

Por sua vez, o ADN decidiu apresentar queixa à CNE contra a AD, criticando a publicidade através dos meios de comunicação com “a desculpa” de alegados enganos entre as duas forças políticas e acusando a coligação de interferência eleitoral.

No meio desta troca de suspeições, os votos foram dados e contabilizados. O resultado? O ADN conseguiu somar mais de 100 mil votos, crescendo cerca de 900% face às últimas eleições. Mas há indícios estatísticos que comprovem esta alegada confusão?

Nas redes sociais multiplicam-se as análises em busca de uma possível explicação. Terão os votos dos evangélicos? Terá sido confusão entre as siglas? A posição do ADN no boletim de voto terá influenciado?

Quanto ao peso dos votos dos evangélicos, o historiador Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, apontou ao jornal “Público” que não têm peso suficiente em Portugal para influenciar os resultados de forma tão significativa (os Censos de 2021 estimavam que existissem 180 mil crentes).

Já no que diz respeito às outras questões, um tweet de Nelson Areal, investigador e professor doutorado em Contabilidade e Finanças, faz a análise – sugerida por Luís Aguiar-Conraria, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho – entre a proporção de votos do ADN e AD numa “comparação dos concelhos do território nacional (excluindo a Região Autónoma da Madeira); e os votos do ADN e da Madeira Primeiro (PPD/PSD.CDS-PP)”. A conclusão é de que “a correlação é elevada, e maior quando o ADN surge primeiro“.

Contactado pelo Polígrafo, Nelson Areal explica que os três gráficos que desenvolveu revelam que é “plausível admitir que, se os enganos aconteceram devido à similaridade dos nomes, terão ocorrido mais frequentemente em concelhos em que a proporção de votos na AD seja maior“.

No primeiro gráfico, relativo aos concelhos da Região Autónoma da Madeira, o investigador explica que “não existe uma grande relação entre a proporção de votos no ADN e no Madeira Primeiro (nome da coligação do PPD/PSD.CDS-PP nessa região)” e que a “correlação entre essas proporções é até negativa, se bem que pequena”, logo “não existe correlação positiva entre a proporção de votos nesses partidos nos concelhos dessa região, onde os nomes do ADN e da coligação Madeira Primeiro são bastante diferentes”.

Luís Aguiar-Conraria, contactado pelo Polígrafo, considera existir uma explicação para essa correlação negativa. “É que na Madeira, a coligação chamava-se Madeira Primeiro e as pessoas podem não ter associado, portanto, não havia correlação”, começa por elaborar, lembrando que no Continente a campanha foi sempre feita apelando ao voto na AD.

“As pessoas que fossem à procura de AD, não a encontravam. Ou seja, é possível que haja um excesso de votação no ADN porque as pessoas procuravam AD, devido à campanha que foi sendo feita, mas o que encontravam era ADN. Mesmo que passassem pelo PSD, continuavam à procura da AD e quando encontravam o ADN confundiam“, explica o professor catedrático.

Relativamente ao segundo gráfico, Nelson Areal explica que “cada ponto corresponde às proporções de voto no ADN e na AD de concelhos do país”, sem incluir a Região Autónoma da Madeira, e que aí existe “claramente uma relação positiva (correlação de 0.43) entre a proporção de votos no ADN e na AD” e que “essa relação é maior para os pontos a azul”, ou seja, “dá suporte ao argumento que deverá ter havido eleitores que votaram no ADN por engano, especialmente em distritos onde o ADN se encontra acima da AD no boletim de voto”.

Quanto ao último gráfico, o também professor na Escola de Economia e Gestão explica que este “apresenta a relação da proporção de votos n0 ADN e na AD apenas para os concelhos de distritos onde o ADN aparece primeiro no boletim de voto” e que, nestes casos, “a correlação é ainda mais forte (0.61)”.

Luís Aguiar-Conraria diz não ter dúvidas quanto à existência de correlação e acrescenta que a “única questão é saber se existe causalidade ou não” e o “facto de a ordem dos partidos ser aleatória permite determinar essa causalidade”.

O professor catedrático remete então para as contas feitas pelo economista Pedro Martins, que afirmou num tweet que “o ADN foi beneficiado pela semelhança do seu nome com a AD” e que “nos distritos em que o ADN aparece primeiro que a AD, o ADN tem 0,56% mais votos”.

Luís Aguiar-Conraria sublinha que “está demonstrado em alguns estudos que os partidos que vêm em cima no boletim de voto têm mais votos do que os que vêm em baixo”, logo, “mesmo não havendo nenhuma confusão, se o ADN está mais para cima, naturalmente teria mais votos”.

“A correlação quando o ADN está em cima é de 0,61 e quando o ADN está em baixo é de 0,34”, acrescenta Luís Aguiar-Conraria. Em conclusão, não só existe correlação como também “um efeito de causalidade que mostra que, quando o ADN está em cima, a votação fica mais alinhada com a do PSD”.

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Avaliação do Polígrafo:

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