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Há dois milhões de pobres em Portugal e cerca de 400 mil crianças a passar fome?

Sociedade
O que está em causa?
Numa publicação feita no Facebook critica-se a classe política por dar atenção ao conflito em Gaza quando existem "dois milhões de pobres em Portugal e destes cerca de 400 mil são crianças". A alegação está correta?
© Agência Lusa / António Cotrim

“Há dois milhões de pobres em Portugal e destes cerca de 400 mil são crianças que passam fome. Os deputados portugueses choram por causa de Gaza, do outro lado do mundo. Talvez fosse melhor matarem-nos de uma vez com bombas”, lê-se numa publicação feita no Facebook no dia 24 de junho que faz o paralelismo entre a situação de pobreza em Portugal e o conflito israelo-palestiniano.

O post, que conta com dezenas de comentários e partilhas, não apresenta quaisquer fontes para aquelas informações nem indica ao que se refere exatamente quando fala em “crianças que passam fome”.

Mas estará correto no argumento que defende?

Os números que podem comprovar a veracidade desta alegação partem de duas fontes distintas: o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Eurostat, gabinete de estatísticas da União Europeia (UE).

Começando pela fonte de estatística nacional, os dados mais recentes remontam a 27 de novembro de 2023 e estão disponíveis no último boletim do INE sobre “Rendimento e Condições de Vida”. Com base no Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado em 2022, verifica-se que em Portugal há 2.104 milhões de pessoas “em risco de pobreza ou exclusão social”, sendo a taxa de pobreza ou exclusão social de “20,1% (o mesmo valor do ano anterior)”.

E se estivesse em causa apenas os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, ou seja, sem as transferências sociais e os rendimentos das pensões, “41,8% da população residente em Portugal estaria em risco de pobreza em 2022“.

Segundo o relatório, “os rendimentos provenientes de pensões de reforma e sobrevivência contribuíram em 2022 para um decréscimo de 20,6 p.p. no risco de pobreza, resultando assim numa taxa de risco de pobreza após pensões e antes de transferências sociais de 21,2%” e “as transferências sociais, relacionadas com a doença e incapacidade, família, desemprego e inclusão social contribuíram para uma redução adicional do risco de pobreza de 4,2 p.p. (de 21,2% para 17,0%)”.

Relativamente ao número de crianças, revelam os dados do Eurostat, divulgados pelo Jornal de Notícias no dia 14 de junho, que, em 2023, quase 23% (22,6%) da população com menos de 18 anos estava em risco de pobreza, ou seja, 379 mil menores nesta situação. Face a 2022, em que a percentagem se fixava em 20,7%, houve um aumento de 40 mil menores.

No entanto, importa esclarecer que este indicador não se refere exclusivamente a crianças “a passar fome”.

De acordo com a informação disponibilizada pelo Eurostat, para se ser considerado no número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social, tem de se encontrar em “pelo menos uma destas três situações“: ter um rendimento disponível inferior ao limiar de risco de pobreza; sofrer de privação material e social grave, portanto aqueles que não podem pagar por pelo menos sete dos treze itens de privação (onde se inclui a alimentação); ou, por fim, quem viva num agregado familiar em que a intensidade de trabalho dos adultos corresponda a 20% ou menos dos meses em que poderiam ter trabalhado.

Ou seja, o facto de haver 379 mil crianças em risco de pobreza ou exclusão social não significa que todas estejam privadas de alimentação e que, consequentemente, estejam “a passar fome”. Estas podem encontrar-se numa das outras duas situações que constituem condição para se considerar que aquelas pessoas se encontram em risco de pobreza.

Por esse motivo, o Polígrafo classifica esta alegação com o carimbo “verdadeiro, mas”.

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Avaliação do Polígrafo:

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