A polémica surgiu no fim do mês passado. Uma utilizadora do Facebook partilhou um texto, onde fala das supostas decisões dos realizadores Woody Allen, Ridley Scott, Tim Burton e Jordan Peele, acerca de critérios racistas na escolha dos elencos para os filmes: «Lembram-se quando Tim Burton veio dizer que as pessoas negras não cabem na estética dos seus filmes? Lembram-se quando Woody Allen disse que nunca contrataria um ator negro, a menos que fosse necessário?

Ridley Scott uma vez disse que não seria capaz de conseguir financiamento para fazer um grande filme, caso o protagonista se chamasse ‘Mohammed fulano de tal, e tal e coisa’. Todos vocês querem ficar com raiva de Jordan Peele por dizer que ele não está interessado em contar histórias brancas quando os seus realizadores favoritos foram, deliberadamente, excluindo pessoas negras de participarem nos seus filmes, desde o começo da história do cinema, e vocês não tiveram porcaria nenhuma para dizer. Um realizador que está concentrado em contar histórias negras e usar atores negros não é opressivo para os brancos. ‘Quando se está habituado a privilegiar, a igualdade parece opressão’».

A publicação surge a propósito dos comentários feitos por Jordan Peele, aquando do lançamento do seu segundo filme de terror «Us». O realizador afro-americano explicou ao Hollywood Reporter a escolha do elenco para o filme, que é encabeçado por atores negros. O cineasta afirmou que está numa posição de poder, e que uma das formas de que tem de o exercer é dar palco, em papéis de destaque, a pessoas negras: «Sinto-me feliz por estar nesta posição onde posso dizer à Universal: ‘eu quero fazer um filme de terror de 20 milhões de dólares com uma família negra’. E eles dizem que sim». O cineasta, que ganhou um Óscar em 2018, continua a explicar a decisão: «Não me vejo a escolher uma pessoa branca como protagonista de um filme meu. Não que eu não goste de brancos».

Os comentários de Peele geraram indignação, pois, para alguns, parece que está a vingar a supremacia branca, ao longo de décadas, no cinema. Ora, a autora do post escreve aquelas palavras para lembrar que num passado bastante recente os realizadores brancos fizeram exatamente o mesmo que Peele está a fazer agora, mas em relação a atores negros.

O que Allen disse foi: «A menos que eu escreva uma história que precise disso. Não se contrata pessoas com base na sua raça. Contrata-se pessoas com base naquilo que é necessário para o papel. Parece que eu estou deliberadamente a não contratar atores negros, o que é estúpido.

De facto, os realizadores mencionados no texto abordaram a questão da escolha de atores negros para os elencos dos seus filmes. Segundo o site de verificação de factos Truth or Fiction, uma publicação de 2016 do Washington Post refere que os filmes de Tim Burton demonstram uma «visão e uma estética muito particular; os filmes dele são peculiares e obscuros, excêntricos e simpatizam com os excluídos… também são muito brancos». O artigo cita outro texto do site Bustle.com, onde Burton fala do facto de se reivindicar a presença de atores negros nos filmes: «Eu lembro-me, quando era criança, de assistir à série Brady Bunch, e eles começaram a ficar politicamente corretos, tipo, ok, vamos ter uma criança negra e uma asiática. Eu costumava ficar mais ofendido com isso do que com o facto de ter crescido só a ver filmes Blaxploitation (movimento que defendia filmes protagonizados por atores negros). E isso é ótimo, não disse que deveria haver mais pessoas brancas nesses filmes».

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Charlie and the Chocolate Factory, de Tim Burton, foi protagonizado por Johnny Depp

É certo que as afirmações dos vários realizadores podem ser encaradas como discriminatórias, com base na etnia. Porém, os cineastas também não são contra o equilíbrio, mas preferem descartar uma diversidade forçada.

No segundo exemplo, a publicação refere que Woody Allen disse que não contrataria um ator negro, a menos que fosse necessário. Em julho de 2014, num perfil do jornal Observer, Woody Allen foi citado acerca das escolhas nos elencos. Os comentários de Allen surgiram depois de uma série de críticas, por não recorrer a atores negros para os seus filmes. O que Allen disse foi: «A menos que eu escreva uma história que precise disso. Não se contrata pessoas com base na sua raça. Contrata-se pessoas com base naquilo que é necessário para o papel. Parece que eu estou deliberadamente a não contratar atores negros, o que é estúpido. Eu escolho apenas o que é certo para o papel. Raça, amizade, não significa nada para mim, à exceção daquilo que é certo para o papel».

Um terceiro exemplo envolve Ridley Scott, que disse que não seria capaz de receber financiamento para fazer um filme, caso o ator principal se chamasse Mohammed. O alvoroço na Internet aconteceu pelo facto de Scott promover atores americanos, europeus, australianos brancos para os papéis principais, em filmes de grande orçamento. O site Variety revela que Scott disse, de facto, em 2014, «Não consigo montar um filme desse orçamento, em que tenho de confiar nas reduções de impostos em Espanha, e dizer que o meu ator principal é Mohammed Fulano de tal e tal. Eu não vou conseguir financiar isso, então nem se coloca a questão».

É certo que as afirmações dos vários realizadores podem ser encaradas como discriminatórias, com base na etnia. Porém, os cineastas também não são contra o equilíbrio, mas preferem descartar uma diversidade forçada. Ridley Scott é aquele que, na verdade, tem uma visão mais estreita, mas também encaminha a responsabilidade dessa visão para quem financia as suas obras.

Avaliação do Polígrafo:

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