É uma publicação com milhares de partilhas nas redes sociais, lançada pelo novo partido Iniciativa Liberal. Tem o seguinte título: “Rostos permanentes do socialismo”. O pretexto é uma declaração recente de Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, retirada do seu discurso na Convenção Europeia do PS, a 16 de fevereiro. Referindo-se aos outros partidos, Santos Silva questionou: “Como podem falar de futuro com as caras do passado?

Na convenção, o líder do PS e atual primeiro-ministro, António Costa, apresentou o cabeça-de-lista do partido às eleições europeias, agendadas para maio. Trata-se de Pedro Marques, até então ministro do Planeamento e das Infraestruturas. Ao contrário dos outros partidos portugueses com representação no Parlamento Europeu (PSD, CDS-PP, CDU e BE) que apostam nos mesmos cabeças-de-lista que se candidataram às anteriores eleições europeias, em 2014, o PS deixa de fora Francisco Assis (cabeça-de-lista em 2014) e opta por Marques, o qual cessou funções no Governo para assumir um novo desafio político.

Foi esse o contexto da declaração de Santos Silva, a comparação com os outros partidos no que respeita aos cabeças-de-lista escolhidos para as eleições europeias. A publicação do partido Iniciativa Liberal utiliza essa declaração para destacar uma aparente contradição com os “rostos permanentes do socialismo”, dispostos numa tabela. Os “rostos” em causa são os de António Costa, Augusto Santos Silva, Mariana Vieira da Silva, José Vieira da Silva, Ana Paula Vitorino, Eduardo Cabrita, Luís Capoulas Santos e Nelson de Souza, classificados como “ministros do atual e ‘remodelado’ Governo socialista”.

Esses “rostos” são depois interligados na tabela a anteriores governos do PS, liderados então por José Sócrates e António Guterres. A mensagem implícita é a seguinte: vários ministros do atual Governo de Costa também foram ministros (ou exerceram outras funções, a tabela não é clara quanto a esse elemento) no Governo de Sócrates e no Governo de Guterres, ou em pelo menos um desses governos. Essa informação é verdadeira?

Há que salientar desde logo uma imprecisão: Sócrates liderou dois governos, o primeiro entre 2005 e 2009, o segundo entre 2009 e 2011, embora na tabela apareça apenas um Governo de Sócrates. Este facto é importante porque a tabela difunde uma ideia de continuidade entre sucessivos governos, algo que na realidade não aconteceu. Por exemplo, o próprio Costa integrou o primeiro Governo de Sócrates, no cargo de ministro de Estado e da Administração Interna, mas em 2007 (após dois anos em funções) saiu desse Governo para se candidatar (com sucesso) à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, na qual permaneceu até 2015. Ou seja, não fez parte do segundo Governo de Sócrates e cumpriu apenas dois anos no primeiro Governo de Sócrates.

Por outro lado, Mariana Vieira da Silva é apresentada como tendo sido ministra no Governo de Sócrates, algo que não é verdade (ressalve-se novamente que a tabela não é clara quanto a ter sido ministra ou exercido outras funções, algo que pode gerar desinformação). No primeiro Governo de Sócrates (2005-2009), Mariana Vieira da Silva foi assessora da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. E no segundo Governo de Sócrates (2009-2011) transitou para as funções de adjunta do secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro. A tabela deveria fazer referência ao facto de alguns “rostos” terem sido ministros em anteriores governos e outros “rostos” terem exercido diferentes funções, como no caso de Mariana Vieira da Silva que foi assessora e adjunta, ainda muito distante do patamar de ministra.

O mesmo se aplica a Nelson de Souza que acaba de ser nomeado como ministro do Planeamento, herdando uma das pastas que era tutelada por Pedro Marques. Na tabela em análise, Souza aparece ligado ao Governo de Guterres (também não se indica o facto de Guterres ter liderado dois governos e não apenas um). De facto, Souza foi secretário de Estado das Pequenas e Médias Empresas, do Comércio e dos Serviços no segundo Governo liderado por Guterres, entre 1999 e 2002. Ou seja, não foi ministro.

Em suma, a tabela em causa deveria sublinhar a distinção entre quem fez parte de anteriores governos socialistas como ministro e quem fez parte de anteriores governos socialistas como secretário de Estado, adjunto, assessor, entre outras funções de menor responsabilidade. É verdade que os “rostos” destacados fizeram parte de anteriores governos de Sócrates e Guterres, mas nem todos foram ministros e, como já foi salientado, em alguns casos não se verificou uma linha de continuidade entre sucessivos governos até ao atual, liderado por Costa.

Avaliação do Polígrafo:

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