“Um carro elétrico após 8, 10 anos não vale nada para revenda, pois as baterias são mais caras do que o valor do próprio carro e a reciclagem de lítio ainda é um grande problema, sem contar a autonomia e o tempo de recarga”, garante o autor do tweet. Será verdade?

O engenheiro Paulo Almeida, da Área Departamental de Engenharia Eletrotécnica, Energia e Automação (ADEEEA) do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL) explica ao Polígrafo que as baterias dos automóveis elétricos, na grande maioria, “têm capacidade para fazer cerca de 500 ciclos de carga/descarga”. Isto traduz-se “numa vida útil (mais de 75% da capacidade inicial) de oito a 10 anos e 150 a 200 mil quilómetros. O fim da vida útil de uma bateria num veículo elétrico atinge-se quando esta apresenta uma capacidade menor que 75% da capacidade inicial”.

De acordo com o especialista do ISEL, “o veículo pode continuar a ser utilizado, mas tem de ser carregado mais vezes e a sua autonomia será cada vez menor, limitando a sua utilidade”. O Automóvel Club de Portugal (ACP) até compara a bateria de um carro elétrico com a bateria de um telemóvel, caraterizando o “desgaste” como “inevitável”.

“O veículo pode continuar a ser utilizado, mas tem de ser carregado mais vezes e a sua autonomia será cada vez menor, limitando a sua utilidade”.

Um estudo recente da Universidade Técnica de Munique analisou a longevidade da bateria de um carro elétrico específico e concluiu que a bateria durou “muito mais” do que os 160 mil km e oito anos que a Volkswagen dá como garantia. Segundo os investigadores, após um cenário de teste, pode-se esperar uma perda de capacidade de 8% até ao final do período de vida útil.

“A bateria é o componente mais caro de um veículo elétrico”

“Todas as baterias são constituídas por módulos que por sua vez são constituídas por células. O que varia entre diferentes fabricantes são os processos de fabrico destes módulos. Há fabricantes em que é possível substituir uma célula de um módulo e há outros em que isso não é tecnicamente viável”, clarifica Paulo Almeida. Efetivamente, é possível trocar os módulos da bateria. No entanto, avisa o especialista, “existem baterias construídas por apenas três ou quatro módulos, o que significa que trocar um módulo é trocar um terço ou um quarto da bateria. A capacidade de uma bateria é sempre limitada pela capacidade da pior célula”.

O engenheiro garante que, quando essas baterias se encontram fora da garantia, podem ter “uma segunda vida” fora do automóvel, nomeadamente “para fazer armazenamento de energia elétrica proveniente de fontes renováveis”. No entanto, substituir toda a bateria sem garantia é caro e pode, realmente, exceder o valor residual do veículo. “A bateria é o componente mais caro de um veículo elétrico. Eu não conheço nenhum fabricante a propor a substituição da bateria fora da garantia por menos de 15 mil euros”.

Quando questionado se compensa mais comprar um carro novo ou substituir a bateria, Paulo Almeida admite que não há uma resposta certa: “Isso depende muito do carro em questão. Se estivermos a falar de um carro de 100 mil euros, um investimento de 15 mil euros ao fim de oito anos pode fazer sentido. Num carro de 40 mil euros não faz”.

Substituir toda a bateria sem garantia é caro e pode, realmente, exceder o valor residual do veículo. “A bateria é o componente mais caro de um veículo elétrico. Eu não conheço nenhum fabricante a propor a substituição da bateria fora da garantia por menos de 15 mil euros”.

O ACP também refere que existe a possibilidade de alugar baterias, mas “esta opção depende, contudo, do fabricante e também de uma análise que se faz ao uso previsto do automóvel, isto é, do número de quilómetros que poderão ser percorridos, já que a renda a pagar pelas baterias pode variar com mais ou menos uso”.

De forma a preservar as baterias das viaturas elétricas, o ACP deixa disponível no seu site um conjunto de cuidados a ter, como carregar a bateria apenas até aos 80% e não na totalidade; não deixar a bateria sem total carga; evitar estações de carregamento rápido; e proteger o veículo do sol e do frio, pois as temperaturas extremas danificam as baterias.

Em suma, ao contrário do que se alega, nem todos os carros elétricos perdem o valor após oito ou 10 anos. A maioria dos fabricantes apresenta uma garantia correspondente a esse período, mas o carro continua a funcionar, sendo que a bateria precisa de ser carregada com mais frequência, pois deixa de ter tanta autonomia.

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EMIFUND

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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