"O racismo voltou a entrar em cena outra vez no Aeroporto de Lisboa. Numa ação de formação sobre os diferentes tipos de animais de pequeno porte que podem passar pelo sistema de Raio X, uma formanda negra perguntou se o macaco doméstico também podia passar no Raio X. A resposta da formadora da ICTS Portugal foi: 'Não. Porque eu vejo os teus primos a andar livremente pelo aeroporto e não vejo ninguém a meter-lhes numa jaula para lhes passar no Raio X'", começa por contar Mamadou Ba, na publicação em causa.

"Chocada e ofendida, a empregada decide naturalmente apresentar queixa interna contra a formadora. Poucos dias depois da sua queixa, a empregada é surpreendida com um e-mail a notificá-la de que a empresa dispensava os seus serviços. Ou seja, a ICTS Portugal decidiu inacreditavelmente retaliar contra a empregada negra, despedindo-a por ter ousado denunciar o racismo de uma funcionária mais antiga e com mais responsabilidades", acrescenta o ativista. "Este caso terá de ser apurado nas instâncias próprias e de forma célere. E nós iremos levá-lo até às últimas consequências, custe o que custar", conclui.

Depois de Mamadou Ba divulgar a alegada situação na sua página de Facebook, também a visada, Daniela Gomes, denunciou a discriminação racial de que terá sido alvo no seu local de trabalho, através de um vídeo partilhado no Tik Tok.

"Eu trabalhava no Aeroporto de Lisboa numa empresa chamada ICTS. Eu fiz queixa de uma colega por racismo e a empresa o que é que fez? Em vez de despedir a colega que foi racista comigo, despediu-me a mim", afirma Daniela Gomes no vídeo em questão.

"Eu, por curiosidade, não sei se é por ser guineense, perguntei se o macaco passava no Raio X. Ela respondeu assim: 'Não, porque eu vejo os teus primos a andar livremente pelo aeroporto e ninguém os coloca numa jaula para passar no Raio X'", conta.

A história não difere da que foi contada por Mamadou Ba. Daniela Gomes confirma que foi "fazer queixa dela [formanda]" e que acabou despedida: "A empresa despediu-me a mim. Ela, como tem mais anos de casa, ficou e eu fui despedida. Ela foi suspensa, mas isso é só para me tapar os olhos. Onde é que já se viu? A vítima aqui sou eu, mas ela é que ficou como vítima".

"É inadmissível nós estarmos em 2021 e estar no local de trabalho e sofrer esse tipo de racismo. Eu fiz uma pergunta simples... Quem acabou prejudicada fui eu. E depois ainda há pessoas que dizem que em Portugal não há racismo. Se isto não é racismo, é o quê?", questiona a visada, já no final do vídeo.

O Polígrafo entrou em contacto com a ICTS Portugal, de forma a esclarecer o sucedido. Em resposta às questões endereçadas, o advogado da empresa garante que "não corresponde à verdade que a ICTS tenha despedido a colaboradora Daniela Gomes".

"A ICTS Portugal contratou diversos colaboradores para exercer a atividade de segurança no Aeroporto General Humberto Delgado, em Lisboa, nomeadamente no Terminal 2. No que concerne a estes colaboradores que exercem a atividade no âmbito da segurança aeroportuária, existem determinados critérios (objetivos) que são considerados por todas as empresas que prestam vigilância aeroportuária, previstos no Regime Jurídico da Vigilância Privada e no Programa Nacional de Segurança na Aviação Civil", explica a empresa.

"Atendendo à complexidade da operação de segurança aeroportuária, é imprescindível perceber se os trabalhadores conseguem, de forma objetiva, concretizar a atividade que lhes é incumbida, com o objetivo de os inserir na operação de segurança aeroportuária. Face ao exposto, ocorreram várias cessações de contratos de trabalho no âmbito do período experimental (incluindo a trabalhadora) e que não têm qualquer relação com a referida denúncia", assegura.

Na resposta ao Polígrafo, a ICTS sublinha que "a cessação do contrato de trabalho no período experimental constitui uma denúncia e não um despedimento" e lamenta que "estes factos (tal como cópia da carta de cessação no âmbito do período experimental)" tenham sido omitidos nas publicações que foram feitas nas redes sociais.

Quanto à denúncia, o advogado da empresa esclarece ainda que, quer a visada quer os colegas que terão assistido à situação foram "inquiridos no âmbito de um procedimento de inquérito imediatamente promovido pela ICTS Portugal". Mais informa que o processo disciplinar "está a correr termos de forma a que a denunciada possa apresentar defesa aos factos suscitados (conforme está previsto na Constituição da República Portuguesa e na legislação laboral, é imprescindível que um trabalhador, arguido no âmbito de um procedimento disciplinar, tenha a possibilidade de apresentar defesa)".

No que respeita à denunciada, esta encontra-se suspensa preventivamente, garante a ICTS, que diz não se rever "nas palavras ditas e escritas no que concerne à alegada discriminação racial que lhe é imputada, nem nos discursos de ódio e fundamentalismo".

Ainda no âmbito desta situação, a ICTS Portugal assegura que sugeriu a Daniela Gomes que esta "apresentasse uma participação criminal junto das autoridades competentes":

"Não deixa de ser lamentável que tenha preferido recorrer às redes sociais para 'denunciar' uma alegada situação irregular de cessação de contrato de trabalho (que não se verifica) e não às autoridades competentes para averiguar da (ir)regularidade da situação (incluindo Autoridade para Condições do Trabalho e Tribunal do Trabalho territorialmente competente)", critica.

"A ICTS faz parte de um grupo económico que exerce a atividade no âmbito da segurança em todo o mundo. Orgulha- se de ter nas suas fileiras colaboradores de todas as proveniências e origens", acrescenta. "As imputações que fazem à ICTS, nomeadamente as produzidas nas redes sociais, são profundamente difamatórias e proferidas sem base factual. Tal comportamento é inaceitável e, obviamente, será participado às autoridades competentes".

De resto, a empresa de segurança manifesta a sua disponibilidade para "colaborar com as autoridades no que concerne ao apuramento dos factos", não podendo deixar de "refutar todas as acusações que foram proferidas nas redes sociais" e lamentando que estas circunstâncias sejam "abordadas numa sede que não respeita a imagem, os direitos e os deveres de todos os envolvidos".

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