“’Mudanças na Terra’: frequência do campo eletromagnético do planeta está aumentando rapidamente.” É este o mote que dá origem uma publicação que tem vindo a ser partilhada nas redes sociais sobre uma suposta alteração no campo eletromagnético da Terra. No texto é referido que “a Ressonância Schumann, que mede o campo eletromagnético da Terra, disparou nos últimos dois meses e os pesquisadores não conseguem encontrar uma razão para explicar o facto”.

Estas grandes alterações, explicadas no post, estão relacionadas com a alteração da suposta “frequência natural e constante do planeta Terra” que é identificada como “Ressonância de Schumann” e que, durante “milhares de anos” tem vindo a pulsar “exatamente em 7,38 Hertz (Hz)”. “Ela [Ressonância de Schumann] se encontrava em 7,83Hz, com poucas variações, desde 1952, mas tudo mudou em junho de 2014, quando o Sistema do Observatório Espacial Russo mostrou um aumento súbito da atividade, com um alongamento variando de 8,5Hz a 16,5Hz”, pode ainda ler-se.

Alexandra Pais, especialista em geomagnetismo e professora na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, analisou, a pedido do Polígrafo, a publicação de Facebook e considerou-a “um exemplo claro de ‘pseudo-ciência’”. “Praticamente cada frase tem pelo menos um erro científico. Mistura conceitos que não estão relacionados, apresenta como eventos extraordinários factos que são bem conhecidos e considerados normais pelos cientistas”, afirma a professora.

“A Ressonância de Schumann é um fenómeno natural de ondas eletromagnéticas – como a luz ou as ondas de rádio –, de muito baixa frequência (inferior às ondas de rádio), onde os campos eletromagnéticos oscilam numa camada esférica entre a superfície da Terra e cerca de 50km de altitude".

Um dos primeiros erros aparece logo no início do texto: a Ressonância de Schumann não mede o campo eletromagnético, como é referido na publicação. “A Ressonância de Schumann é um fenómeno natural de ondas eletromagnéticas – como a luz ou as ondas de rádio –, de muito baixa frequência (inferior às ondas de rádio), onde os campos eletromagnéticos oscilam numa camada esférica entre a superfície da Terra e cerca de 50km de altitude”, explica.

As ondas de Schumann – que receberam este nome devido ao físico alemão Winfried Otto Schumann, que fez a previsão destas ondas entre 1952 e 1957 – podem ter frequências diferentes, alternando entre 7.8, 14, 20, 26, 33, 39 e 45 Hz. Ou seja, a referência a um aumento da frequência para 30Hz não é uma “anormalidade”, como é referido na publicação, uma vez que está dentro dos valores expectáveis. Este fenómeno acontece “devido à atividade elétrica na atmosfera, nomeadamente a ocorrência de trovoadas”, acrescenta Alexandra Pais.

Também Jorge Cruz, geofísico no Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e especialista em geomagnetismo, explica ao Polígrafo que a ressonância de Schumann “são picos de energia no espectro das frequências extremamente baixas dentro do campo magnético terrestre”, sublinhando que “o campo magnético da Terra, cuja origem é no núcleo, é completamente diferente da Ressonância de Schumann”.

“O campo magnético terrestre não é constante, nem nunca foi constante. Varia de diversas formas. São variações que têm a ver com fenómenos internos do globo terrestre, mas há outras variações que têm a ver com as tempestades magnéticas solares – aquelas explosões solares que de vez em quando atingem a camada terrestre. Essas são perturbações mais curtas que podem ir de alguns segundos e alguns dias de variação”, prossegue o geofísico.

“O campo magnético terrestre não é constante, nem nunca foi constante. Varia de diversas formas. São variações que têm a ver com fenómenos internos do globo terrestre, mas há outras variações que têm a ver com as tempestades magnéticas solares".

Os especialistas sabem que as alterações mais bruscas ao campo eletromagnético terrestre têm, normalmente, origem no Sol, uma vez que estão relacionadas com os picos de atividade solar. “Nós sabemos que a atividade solar varia, de grosso modo, de 11 em 11 anos. Prevê-se que daqui a três ou quatro anos vamos ter novamente um pico de atividade solar”, acrescenta.

No entanto, Jorge Cruz não tem conhecimento da ocorrência de qualquer alteração anormal nos valores das frequências relativas à Ressonância de Schumann, avançando que os valores identificados pelos cientistas “têm a ver com a configuração da Terra ser um globo e ter a camada do campo eletromagnético a cerca de 100km acima de nós”. “Nem sei do que estão a falar quando dizem que tudo mudou em junho de 2014”, acrescenta

Impacto das variações do campo eletromagnético nos seres humanos

Há duas afirmações na publicação que relacionam o campo eletromagnético com o comportamento humano. A primeira refere a existência de uma ligação entre a frequência da Ressonância de Schumann e as ondas cerebrais humanas: “A frequência de Schumann está ‘em sintonia’ com os estados do cérebro humano alfa e theta. Essas ressonâncias crescentes correspondem naturalmente à atividade de ondas cerebrais humanas, o que significa que a Terra estaria ajustando sua frequência de vibração”, pode ler-se.

A segunda afirmação está relacionada com a primeira: “Essa pode ser uma explicação para a estranha sensação que temos de que o tempo está passando mais rapidamente nos dias de hoje. A razão aparentemente está ligada ao excesso de velocidade da Ressonância Schumann, que nos faz perceber um período de 24 horas como se ele tivesse aproximadamente 16 horas.”

No entanto, não existe qualquer evidência científica que comprove qualquer uma das afirmações referidas. Alexandra Pais explica que “terão havido estudos para testar se as ondas de Schumann estavam relacionadas com oscilações do comportamento humano, [realizados] por Alexander Chizhevsky”, mas ressalva que “quando entramos nessa dimensão, tudo se torna bastante esotérico e carecendo de comprovação científica robusta”.

Esta ligação entre a Ressonância de Schumann e a perceção do tempo não é nova e tem vindo a ser partilhada em diversas línguas. A plataforma de fact-checking norte-americana Snopes desmistificou também este assunto, identificando a sua origem: “A noção de que a ‘pulsação’ está a aumentar parece ter tido origem no autor da nova era Gregg Branden, que foi um dos grandes defensores da teoria de que os pólos magnéticos se inverteriam em 2012”, explica o fact checker.

Gregg Branden não explica, porém, como é que as alterações na Ressonância de Schumann têm a capacidade de alterar a perceção que as pessoas têm do tempo. Além disso, como já foi referido, a variação do campo eletromagnético é uma situação normal e constante, podendo ser causada por vários motivos.

___________________________________

Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

Assina a Pinóquio

Fica a par de todos os fact-checks com a newsletter semanal do Polígrafo.
Subscrever

Recebe os nossos alertas

Subscreve as notificações do Polígrafo e recebe todos os nossos fact-checks no momento!

Em nome da verdade

Segue o Polígrafo nas redes sociais. Pesquisa #jornalpoligrafo para encontrares as nossas publicações.
Falso
International Fact-Checking Network