"Aqui há uns tempos uma amiga aqui do Facebook publicou esta foto. Fiquei na dúvida da veracidade da mesma. Hoje, em conversa com a minha tia, que tem 81 anos, sobre as 'alterações climáticas', ela falou exatamente nisto. O povo chamava-lhe Bazófias. Ela lembra-se de passar o rio Mondego a pé e haver apenas um fio de água, como está na foto", destaca-se na legenda de uma publicação no Facebook, datada de 22 de agosto.

A imagem referida mostra a zona que corresponde atualmente ao "Parque Verde do Mondego", em Coimbra, com o rio praticamente seco. Atualmente, o curso de água tem um caudal substancial nesta zona.

No post são ainda feitas considerações sobre as alterações climáticas e o aquecimento global, no sentido de negar a sua existência. "Antes de haver humanos na terra, já havia alterações climáticas. Períodos de gelo e períodos de calor. Lá está, isto é cíclico. Sempre houve 'ondas de calor', sempre houve anos de seca e outros com menos seca", alega-se.

Questionado pelo Polígrafo, Pedro Proença Cunha, professor de Geologia no Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Coimbra, diz não ter dúvidas de que a fotografia em causa está a ser colocada fora do contexto nesta publicação. Isto porque foi captada antes da construção de um açude. "O que acontecia é que no verão, o Mondego, como um rio semi-torrencial, tinha um caudal muito pequeno. A água corria dentro das aluviões, muito pouco à superfície", assinala.

"O mesmo não acontece agora porque o açude levantou o nível da água e proporcionou a existência permanente de um espelho de água", esclarece o geólogo, que garante que "este contexto nada tem a ver com a realidade da variação climática".

Por sua vez, Helena Freitas, professora e investigadora da Universidade de Coimbra na área da Biodiversidade, tem o mesmo entendimento. "O caudal de um rio varia sempre e depende de vários fatores, mais ainda num rio artificializado com barragens e açudes que controlam o seu caudal. É o caso do Mondego", garante. E acrescenta que é necessário ter em conta que a fotografia em causa é antiga e que "revela a dinâmica fluvial que os rios têm e que dependem da pluviosidade".

Em relação à afirmação feita no post em análise, de que "sempre houve ondas de calor", a especialista esclarece que apesar de tal ser verdade, atualmente, estas registam-se "com uma frequência muito maior e em regiões onde não eram habituais".

"As ondas de calor que se registaram este ano, atingiram regiões europeias pouco habituadas a estes episódios. O Reino Unido, por exemplo, registou temperaturas acima dos 40C; em Espanha, um país habituado a um verão longo e quente, os números oficiais revelam uma elevada taxa de mortalidade associada ao clima", descreve a especialista.

Em relação ao "negacionismo ambiental" evidenciado na publicação, Helena Freitas assume que "infelizmente persistem essas posições". No entanto, entende que a tendência é a de que estas se esbatam, já que "os modelos são cada vez mais inequívocos e os impactos [das alterações climáticas] cada vez mais visíveis". E acrescenta: "A prova deve ser científica e não uma interpretação que resulta da perceção de uma pessoa ou conjunto de pessoas. E a ciência - recorrendo a dados objetivos - hoje demonstra de forma clara a mudança em curso e os seus impactos à escala planetária".

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