"Na minha ótica, o doutor António Costa não ter uma fotografia clara, não dizer exatamente o que faz, acontece um pouco o que aconteceu em 2015, que durante a campanha eleitoral não explicou o que poderia fazer no caso de perder e depois fez um acordo com o BE e o PCP", afirmou Rui Rio, no debate de ontem contra António Costa, líder do PS e primeiro-ministro em funções desde o final de 2015.

"Que é uma coisa legítima do ponto de vista parlamentar, é certo, mas que não foi esclarecida antes para as pessoas votarem em consciência", acrescentou o líder do PSD.

Dada a palavra a Costa, este mostrou uma manchete do jornal "Expresso" e desmentiu o rival: "Ao contrário do que Rui Rio diz, em 2015 disse aos portugueses, antes das eleições, o que é que faríamos. Esta é a manchete do 'Expresso' do dia 26 de setembro de 2015, uma semana antes das eleições e [diz] preto no branco: 'Costa chumbará um Governo de direita se ele for minoritário'".

"Disse aos portugueses que se a direita fosse minoritária, concorrendo em coligação contra o PS e este ficasse em minoria, faríamos tudo para ter uma negociação à esquerda que nos permitisse a governação", assegurou Costa, dirigindo-se a Rio com uma cópia da manchete nas mãos.

Afinal, quem é que tem razão?

Começando pela manchete, é autêntica e importa salientar também o subtítulo: "PS pensa que será Governo se não houver maioria PSD/CDS-PP. Costa confia na maioria de esquerda e na capacidade para fazer acordos."

O respetivo artigo estava disponível na página do jornal "Expresso" até ao ataque informático de que foi alvo. Quanto à descrição de Costa, é relativamente fiel ao conteúdo da notícia, excepto na atribuição da fonte de informação. Lendo o artigo verifica-se que não há citações diretas do próprio Costa, baseando-se tudo em fontes não identificadas do PS e do círculo próximo do então candidato a primeiro-ministro.

No entanto, o facto é que nesse mesmo dia 26 de setembro de 2015, Paulo Portas, líder do CDS-PP e vice-primeiro-ministro do Governo em funções (baseado numa coligação entre PSD e CDS-PP, com Pedro Passos Coelho no cargo de primeiro-ministro), comentou logo a referida notícia do "Expresso" e pareceu evidente que tinha atribuído a fonte de informação a Costa. Ou seja, mesmo sem discurso direto, Portas leu a notícia como uma espécie de "recado" ou "ameaça" de Costa e, como tal, fez questão de responder em declarações aos jornalistas:

"Não é uma atitude respeitadora da vontade popular nem uma atitude construtiva. É um caso inédito na democracia portuguesa o que está a suceder. O líder do maior partido da oposição já não fala como se fosse ganhar, já só ameaça o que fará se perder."

Segundo reportou a Agência Lusa, "em Amarante, Paulo Portas afirmou que António Costa, depois de ter anunciado que votaria contra um Orçamento [do Estado] que não conhece, 'agora radicalizou ainda mais: não deixará a coligação aprovar o seu programa de Governo se a coligação ganhar as eleições".

As eleições legislativas de 2015 realizaram-se no dia 4 de outubro. Por sua vez, a manchete do "Expresso" foi publicada no dia 26 de setembro, em plena campanha eleitoral. No debate de ontem, Rio disse que Costa "durante a campanha eleitoral não explicou o que poderia fazer no caso de perder".

Não terá explicado em discurso direto, nesse ponto Rio tem razão, mas a notícia do "Expresso" foi suficientemente explícita para Portas ter imediatamente antecipado a possibilidade do que viria a ser denominado (pelo próprio, respigando numa crónica de Vasco Pulido Valente) como uma geringonça - isto é, a solução de Governo minoritário do PS com apoio parlamentar do BE, PCP e PEV, após o derrube do brevíssimo segundo Governo de Passos Coelho.

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Por outro lado, encontrámos um registo em que Costa assumiu o que poderia vir a fazer, embora com maior distância temporal em relação às eleições legislativas de outubro de 2015. E dessa vez em discurso direto. Trata-se de uma entrevista ao jornal "Público", datada de 20 de julho de 2014, a propósito da disputa pela liderança do PS entre o pretendente Costa e o incumbente António José Seguro, via eleições diretas.

Nessa entrevista, Costa assumiu o objectivo de obter uma maioria absoluta nas eleições legislativas de 2015, mas não excluiu a possibilidade de vir a estabelecer acordos de governação com outros partidos mais à esquerda.

"A experiência também me ensinou que não basta ter a porta aberta para que o PCP e o BE estejam disponíveis para assumir responsabilidades governativas. Mas, por mim, como sempre fiz na vida, a porta estará aberta, com a mesma disponibilidade, a mesma franqueza e a mesma clareza com que o fiz no passado. Agora, com o actual PSD não é possível nenhum entendimento», advertiu Costa.

Mais, "uma das questões que é necessário resolver de uma vez por todas no sistema partidário português é esta assimetria de haver soluções fáceis de governo à direita e difíceis à esquerda. Não é possível que parte da esquerda considere que deve ser apenas voz de protesto e nunca a voz da solução para os problemas do país".

Em conclusão, optamos pelo carimbo de "Impreciso", tanto para Rio como para Costa. Ambos têm razão em parte do que alegam, mas Rio extrapola ao dizer taxativamente que Costa "não explicou" de todo, ao passo que Costa apresenta uma notícia com base em fontes não identificadas como se tivesse citações suas em discurso direto.

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