No entanto, isso não quer dizer que não possa já ter existido vida no planeta vermelho, há milhões de anos, ou que ela não possa vir a ser encontrada no subsolo, em cavidades ou até por baixo da calota de gelo do Pólo Sul. 

Os cientistas detetaram moléculas orgânicas no solo rochoso de Marte – o que pode revelar-se um indicador relevante. O mesmo acontece com a presença de metano confirmada episodicamente na atmosfera. A origem deste gás, que pode ter sido produzido por micro-organismos ou resultar de processos geológicos, permanece por explicar.  

Cientistas de olhos postos em 2021 

Jim Green, um dos investigadores principais da agência espacial americana (NASA), acredita que os cientistas estão perto de poder confirmar se existe vida em Marte. Em entrevista ao jornal The Sunday Telegraph, em setembro, o físico americano explicou que a NASA e a estação espacial europeia (ESA) estão a colaborar no desenvolvimento de missões que irão fazer chegar novos “rovers” a Marte — e lembrou que estes têm chegada prevista já em março de 2021.

Os robôs irão perfurar o solo para recolher amostras, que serão depois analisadas na Terra. Segundo Jim Green, alguns meses poderão ser suficientes para obter a resposta à pergunta “de um milhão de dólares” sobre a existência de vida em Marte. 

O cientista não parece ter muitas dúvidas. “Será revolucionário. Será como quando Copérnico disse “nós andamos à roda do Sol”. Completamente revolucionário. Dará início a toda uma nova forma de pensar”, comentou, ressalvando que a humanidade poderá não estar preparada para o futuro após a confirmação da existência de vida extraterrestre. “O que acontece a seguir é um novo conjunto de questões científicas. Essa vida será como a nossa? Como estamos relacionados? Pode a vida mover-se de planeta em planeta ou temos uma faísca e o ambiente certo, e essa faísca gera vida?”

O que já se sabe

Água líquida – Dados recolhidos pelo radar Marsis, a bordo da sonda Mars Express, da ESA, permitiram confirmar aquilo que os cientistas já suspeitavam há muito: existe água líquida em Marte. Por baixo da calota de gelo do Pólo Sul, a 1,5 quilómetros da superfície, investigadores italianos do Instituto de Radioastronomia de Bolonha detetaram fortes indícios da existência de um lago de água salgada com 20 quilómetros de diâmetro. A confirmação da descoberta, que foi publicada num artigo da revista Science em julho de 2018, entusiasma os cientistas. Mas é importante notar que, a existir vida neste lago, estaremos a falar de extremófilos, microorganismos habituados a condições geoquímicas extremas. Além das altíssimas concentrações de magnésio, cálcio e sódio, a temperatura da água situa-se entre os 10 e os 70 graus Celsius negativos.

Metano 

Em abril, foi revelado que o cruzamento de dados recolhidos pelo robô Curiosity (da NASA) e pela Mars Express, da Agência Espacial Europeia, com apenas um dia de diferença e no mesmo local, em 2013, permitiu comprovar a presença de metano em Marte. 

Depois de muitas reviravoltas desde o primeiro anúncio da ESA, em 2004 (o Curiosity registou níveis baixíssimos de metano e a sonda ESA ExoMars Trace Gas Orbiter, que chegou em 2016, não detetou quaisquer vestígios do gás na atmosfera de Marte), o artigo publicado na revista Nature Geoscience foi um avanço importante. No entanto, há muito ainda por explicar. O metano, que parece estar a ser libertado episodicamente na atmosfera de Marte, poderá dever-se a uma reação química provocada por fenómenos geológicos.  

Moléculas orgânicas

As moléculas orgânicas não são vida, mas são essenciais para que uma célula se possa estruturar – ou seja, para que a vida possa existir. A metáfora que os cientistas habitualmente usam ajuda a explicar o que está em causa: elas são os tijolos, sem os quais não se consegue construir a casa. 

Em Marte, a certeza de existência de vestígios de carbono e hidrogénio, oxigénio, entre outros compostos orgânicos, foi confirmada por cientistas da NASA. De acordo com um artigo publicado na Science, em junho de 2018, dados recolhidos pelo “rover” Curiosity permitiram identificar compostos orgânicos no solo rochoso da cratera Gale, um local que aparenta ter conseguido manter as condições geológicas de há 3,5 mil milhões de anos, quando a vida surgiu na Terra. Perceber se a origem externa destas moléculas é externa ou se são indícios que por ali já existiu vida é um dos objetivos da ESA, que espera poder começar a analisar as amostras recolhidas pelo “rover” ExoMars já em 2021. hel

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