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Foi noticiado que este político ucraniano é suspeito de intermediar venda de armas ao Hamas?

Ucrânia
O que está em causa?
Circula nas redes sociais a narrativa de que David Arakhamia, dirigente do partido do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, será “suspeito de intermediar a venda de armas ucranianas a representantes do Hamas”. A suposição sustenta-se através de um alegado vídeo da autoria da BBC. Mas será tudo isto verdade?

“David Arahmia [Arakhamia] é suspeito de intermediar a venda de armas ucranianas a representantes do Hamas.” O texto, aqui traduzido do original em inglês, consta de uma imagem retirada de um vídeo alegadamente produzido pela cadeia de televisão britânica BBC, que já viralizou em várias plataformas de redes sociais.

A suspeição sobre o político ucraniano, líder do partido do presidente Volodymyr Zelensky –  batizado de “Servidor do Povo” – e chefe da delegação de Kiev durante as conversações do ano passado com a Rússia, está já, também, a ser disseminada em língua portuguesa no Facebook. Argumenta-se, por essa via, que o “TPI [Tribunal Penal Internacional] está preparando um caso contra Arakhamia por envolvimento na venda de armas ao Hamas”.

Segundo esta acusação, o político ucraniano estará “ligado à venda de armas ao Hamas, que levou ao ataque bem-sucedido a Israel em 7 de outubro”. E acrescenta-se: “Presume-se que Arakhamia ‘agiu como intermediário’ em todos os processos de corrupção. É interessante que estes ‘insights’ tenham surgido dois meses após o ataque do Hamas.”

Destaca-se ainda, nesta publicação, uma eventual “coincidência” relacionada com a data de divulgação deste caso, “quase imediatamente após as revelações do político sobre as negociações entre a Ucrânia e a Rússia em Istambul e o seu fracasso por causa de [Boris] Johnson”. Isto depois de, segundo a imprensa ucraniana, David Arakhamia ter denunciado que a Rússia propôs o fim da guerra em curso no país vizinho na primavera de 2022, caso a Ucrânia abandonasse as suas aspirações de adesão à NATO e adotasse uma posição neutra. Porém, de visita a Kiev a 9 de abril, o então Primeiro-Ministro britânico terá defendido que a Ucrânia “não devia assinar” qualquer acordo, mas sim continuar a “lutar”, explicou o legislador.

No X/Twitter, a mesma tese acerca das alegadas suspeitas a recair sobre David Arakhamia circula em vídeo – o tal alegadamente assinado pela BBC. O mesmo acrescenta que foram “jornalistas do [grupo de investigação] Bellingcat” que “receberam esta informação [acerca do caso pendente sobre o político] por parte de uma fonte próxima do gabinete do procurador do Tribunal Penal Internacional”.

Adicionaram-se ao vídeo, ainda, declarações de Eliot Higgins, fundador do “Bellingcat”, que justifica que o processo iniciado pelo TPI é um “aviso sério por parte das elites políticas britânicas”; e o comentário do jornalista da BBC Shayan Sardarizadeh, que aparenta destacar que estas são “alegações sérias”.

Mas será que a “notícia” que dá conta de que este político ucraniano é suspeito de intermediar a venda de armas ao Hamas é verdadeira?

Não. O “Bellingcat”, a quem se atribui a responsabilidade pela obtenção da informação, recorreu à sua conta oficial no X/Twiiter para desmentir a alegação, identificando certos excertos do vídeo alegadamente atribuído à BBC. “Um novo relato falso da BBC captou a nossa atenção, alegando que um político ucraniano esteve envolvido na venda de armas ao Hamas. Mais uma vez, a “Bellingcat” não fez qualquer reportagem sobre este assunto e as afirmações e citações incluídas nesse ‘relato’ são falsas”, explicou o grupo de investigação.

Isto depois de, em outubro deste ano, o “Bellingcat” ter desmentido a autoria de outras narrativas semelhantes a que o seu nome tinha sido igualmente associado. “Temos conhecimento de um vídeo falso da BBC que circula nas redes sociais, alegando falsamente que a Bellingcat verificou a venda de armas ucranianas ao Hamas. Não chegámos a tais conclusões nem fizemos tais afirmações. Gostaríamos de sublinhar que se trata de uma falsificação e que deve ser tratada em conformidade”, afirmaram, na altura.

Também Eliot Higgins, fundador do “Bellingcat”, reagiu a esta publicação mais recente que aqui analisamos: “Mais um vídeo falso que se faz passar por uma reportagem da BBC e do “Bellingcat”. Este é o terceiro vídeo deste género. Acho que devemos considerar um elogio o facto de eles pensarem que o Bellingcat é tido em tão alta conta.”

Shayan Sardarizadeh, jornalista da BBC que também é ouvido, no vídeo viral, supostamente a comentar o caso envolvendo David Arakhamia, assegurou também que se trata de um “vídeo falso”. No X, escreveu: “Mais um vídeo falso atribuído à BBC News e ao ‘Bellingcat’ apareceu no Telegram russo, sugerindo falsamente que a Ucrânia está a vender armas ao Hamas, algumas das quais foram utilizadas no ataque de 7 de outubro. O vídeo apresenta citações falsas minhas e de Eliot Higgins. É um disparate total.”

Importa, ainda, notar que no vídeo falsamente atribuído à BBC, o apelido de David Arakhamia está escrito erradamente (Arahmia). Um erro que seria pouco comum da parte da cadeia televisiva britânica – que, anteriormente, teria feito referência ao nome com a ortografia correta. Além disso, não existe qualquer registo, no “site” e redes sociais deste meio de comunicação social, que sustentem que o vídeo que aqui analisamos seja da sua autoria.

O tema foi também alvo de verificação por parte da Reuters e do “Logically Facts”.

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Avaliação do Polígrafo:

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