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Flúor na pasta de dentes provoca cancro?

Saúde
O que está em causa?
Nas redes sociais, diz-se que o flúor presente nas pasta de dentes provoca cancro. É verdade? Há evidência que o comprove?

Em Portugal, o flúor está presente nas pastas de dentes. Noutros países, como os Estados Unidos, é adicionado à água para consumo como medida de saúde pública.

Nas redes sociais e em várias plataformas, é comum a ideia de que o flúor provoca, entre outras doenças, cancro. O próprio secretário de Estado da Saúde norte-americano, Robert F. Kennedy Jr., é autor desse tipo de alegações e apoiou o fim da fluoretação da água nos Estados Unidos. Mas será mesmo assim?

O flúor pode mesmo provocar cancro?

Não, não há evidência que sustente essa alegação. 

Antes de mais, importa esclarecer que é, de facto, diferente ingerir flúor através de água ou de pasta dos dentes. No segundo caso, por não ser engolido, o flúor será absorvido de forma diferente — “há menos probabilidade de produtos dentários serem motivo de preocupação em termos de possíveis problemas de saúde”, lê-se no site da American Cancer Society.

O flúor é importante para a saúde oral. Em declarações ao Viral em abril, Paulo Rompante, professor universitário no Instituto Universitário de Ciências da Saúde (CESPU), explicou que os dentes são constituídos por “cálcio, fósforo e flúor”. 

E, ao longo do tempo, “com tudo o que se passa na cavidade oral, vamos perdendo minerais nos dentes”. 

Da mesma forma que, “para estarmos hidratados, temos de beber água”, para remineralizar os dentes, “precisamos de fontes de cálcio, fosfatos e fluoretos” — caso contrário, podemos desenvolver vários problemas, desde cáries até à perda total de dentes.

A ideia de que o flúor provoca cancro pode ter surgido, de acordo com o Instituto Nacional do Cancro dos Estados Unidos (NCI), após a publicação, em 1991, de um estudo do Programa Nacional de Toxicologia norte-americano que registou um aumento no número de osteossarcomas (tumores ósseos) em ratos que receberam água com alto teor de flúor durante 2 anos. 

Mas duas revisões abrangentes (ver aqui e aqui) que tinham em conta estudos em humanos e em animais, publicadas na mesma época, concluíram que não havia relação entre água fluoretada e cancro.

“A teoria sobre como a fluoretação pode afetar o risco de osteossarcoma baseia-se no facto de que o flúor tende a se acumular em partes dos ossos onde eles estão a crescer. Essas áreas, conhecidas como placas de crescimento, são onde os osteossarcomas normalmente se desenvolvem. A teoria é que o flúor pode, de alguma forma, fazer com que as células da placa de crescimento cresçam mais rapidamente, o que pode torná-las mais propensas a eventualmente desenvolver cancro”, lê-se no site do NCI.

Mas essa teoria não passa disso, não há evidência científica que a sustente. Depois das duas análises feitas, já “vários estudos epidemiológicos foram realizados, sem evidências credíveis de uma associação entre os níveis de flúor e o osteossarcoma ou o sarcoma de Ewing” —  a maioria deles baseados em estimativas históricas de exposição.

Em 2011, um grupo de investigadores testou outra forma de compreender se o flúor podia estar, de alguma forma, relacionado com o desenvolvimento de cancro.

Mediram a concentração de flúor em amostras de osso normal adjacentes ao tumor de uma pessoa. Como o flúor se acumula naturalmente nos ossos, o método fornece uma medida mais precisa da exposição ao flúor já que não se recorre à memória dos participantes do estudo ou aos registos do tratamento de água.

Essa análise não mostrou diferença nos níveis de flúor nos ossos entre pessoas com osteossarcoma e pessoas de um grupo de controlo que tinham outros tumores ósseos malignos.

O flúor não provoca cancro. Pode, sim, causar outros problemas, mas só quando os valores recomendados são ultrapassados. “Os valores paramétricos para a saúde humana não deixam que sejam ultrapassados 1,5mg/L”, dizia em Abril Paulo Rompante, a partir desse valor o flúor pode ter efeitos nocivos.

O que a evidência mostra é que há uma relação entre níveis elevados de flúor e problemas de desenvolvimento, mas baseiam-se em países onde a quantidade de flúor na água não é controlada e existe, naturalmente, em quantidades superiores a 1,5mg/L.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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