"Portanto, o Ferro Rodrigues e o Marcelo Rebelo de Sousa vão todos lampeiros a Sevilha no domingo, quando a Área Metropolitana de Lisboa vai estar sob cerco sanitário", lê-se num tweet datado de 24 de junho.

"Marcelo: 'temos de nos focar é na seleção'; Ferro Rodrigues: 'temos de ir maciçamente a Sevilha (local do próximo jogo da seleção)'; Costa a organizar finais da Champions com ingleses quando situação piorava no Reino Unido... Um país comandado pelo futebol ou antes pela insanidade", salienta-se noutro tweet do mesmo dia.

De facto, ontem à noite, ao sair do estádio Puskás Arena, em Budapeste, após o jogo da seleção portuguesa de futebol, Ferro Rodrigues deu uma breve entrevista à RTP, no decurso da qual proferiu a seguinte afirmação: "Espero que os portugueses se desloquem de forma massiva até ao Sul de Espanha para apoiar uma grande vitória de Portugal nos oitavos-de-final deste Campeonato da Europa".

Foi esta frase, em específico, que motivou a vaga de críticas no Twitter. Além de incentivar uma deslocação "massiva" a Sevilha, o presidente da Assembleia da República aproveitou também para sublinhar que vai marcar presença no jogo agendado para o próximo domingo, opondo as seleções de Portugal e da Bélgica. "Falei com o Presidente da República que me disse que lá estaremos em Sevilha, estarei com ele, com todo o gosto a acompanhar a seleção nacional em mais uma epopeia deste Europeu", garantiu.

No dia seguinte às declarações de Ferro Rodrigues, o Governo anunciou um recuo no processo de desconfinamento na Área Metropolitana de Lisboa ao fim-de-semana. Ou seja, vão estar em vigor novas restrições precisamente no domingo em que se realizada o jogo em Sevilha, tendo Ferro Rodrigues incentivado os portugueses a deslocarem-se de forma "massiva" para esse jogo de futebol.

"De forma a conter o aumento de incidência que se tem verificado, fica proibida a circulação de e para a Área Metropolitana de Lisboa ao fim-de-semana, entre as 15:00h do dia 25 de junho e as 06:00h do dia 28 de junho, sem prejuízo das excepções previstas. É ainda admitida a circulação mediante apresentação de comprovativo de realização laboratorial de teste para despiste da infeção por SARS-CoV-2 com resultado negativo ou, alternativamente, mediante apresentação do Certificado Digital Covid-19 da União Europeia", informa-se no comunicado do Conselho de Ministros de 24 de junho.

"Não existem condições para prosseguir o plano de desconfinamento previsto", afirmou esta tarde a ministra de Estado e da Presidência, Mariana Vieira da Silva, em conferência de imprensa após a reunião do Conselho de Ministros.

Questionado pelo Polígrafo sobre as declarações de Ferro Rodrigues em simultâneo com o recuo no desconfinamento, Ricardo Mexia, epidemiologista e presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, considera que "este é só mais um exemplo de mensagens contraditórias que acabam por chegar à população, o que, naturalmente, gera confusão e gera alguns problemas".

"Estamos numa fase em que impõem restrições à circulação em algumas regiões, nomeadamente na Área Metropolitana de Lisboa, e apelar a fazer-se o inverso não contribui para que a mensagem sobre quais são as prioridades neste momento possa chegar nas melhores condições. É fundamental que se perceba que, infelizmente, a pandemia ainda não terminou, que temos de ter cautelas, o que inclui resguardarmo-nos de grandes ajuntamentos, particularmente em ambientes que não são muito controlados, como é o caso", sublinha o epidemiologista.

Na conferência de imprensa desta tarde, a ministra Vieira da Silva foi questionada sobre o apelo de Ferro Rodrigues para que os portugueses se desloquem a Sevilha, mas recusou tecer qualquer comentário. "Nunca comento declarações de outros órgãos de soberania", disse, embora ressalvando que "as viagens não estão proibidas", apesar de existirem "regras que devem ser cumpridas".

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Avaliação do Polígrafo:

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