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O que está em causa?Em entrevista ao "Observador", o líder parlamentar do PSD garante o compromisso do partido com a estabilidade governativa. Será, aliás, essa a razão para que os sociais-democratas sejam o partido que menos vezes recorreu à "bomba atómica parlamentar". Mas é mesmo assim?
A um dia do início das jornadas parlamentares do PSD, Fernando Negrão deu uma entrevista ao “Observador” em que falou sobre quase tudo: o PSD, que “não quer radicalizar a vida política em Portugal”; sobre Rui Rio, que “tem apresentado propostas ousadas” e “tem noção de que para se ser político é para se fazer grandes reformas importantes para o país”; sobre o “banho de ética” proposto em tempos pelo líder do partido, que é para “continuar”; e, finalmente, sobre CDS, que apresentou recentemente uma moção de censura que Negrão desvaloriza, por considerar que não teve utilidade política.
Sobre o tema da moção de censura, que apesar de tudo considera ter sido “um momento interessante de debate e de oposição ao Governo”, o líder parlamentar social-democrata afirma a diferença do PSD em relação ao CDS: “O PSD foi sempre defensor do cumprimento dos mandatos que os eleitores conferem, por isso é o partido que menos moções de censura apresentou no Parlamento, porque é defensor da estabilidade governativa.”
Mas será mesmo verdade que o PSD é o partido que menos utilizou a chamada “bomba atómica parlamentar”? A resposta é positiva.Vejamos os factos:
A moção de censura do CDS foi a 27ª a ser discutida no Parlamento (houve outras 5 que não foram discutidas ou que foram retiradas) em democracia, tendo sido a oitava apresentada pelos centristas (embora a que foi anunciada em 1984 contra o Governo liderado por Mário Soares não tenha sido discutida), o que os coloca apenas atrás do PCP no capítulo da utilização da "bomba atómica" parlamentar.
Os comunistas anunciaram um total de 11 moções de censura, embora apenas 8 tenham chegado a ser efetivamente discutidas - ou seja, para todos os efeitos estão à frente dos centristas, com mais um debate parlamentar a propósito deste tipo de iniciativa. Seguem-se PS e BE (ambos com 5), sendo que no caso dos socialistas apenas 4 chegaram ao debate em plenário. Quanto ao PSD, efetivamente é o mais comedido, tendo avançado apenas por uma vez (em setembro de 2000, era então líder do partido Durão Barroso e António Guterres Primeiro-Ministro) para o derrube do Governo.
FIQUE COM A LISTA COMPLETA DAS MOÇÕES APRESENTADAS:
IV Governo (Carlos Mota Pinto)
08/05/1979 - PCP (adiada)
05/06/1979 - PCP (não discutida)
05/06/1979 - PS (não discutida)
VI Governo (Francisco Sá Carneiro)
12/06/1979 - PCP (não discutida)
VIII Governo (Francisco Pinto Balsemão)
04/03/1982 - PS
24/03/1982 - PCP
IX Governo (Mário Soares)
31/05/1984 - CDS (retirada)
18/12/1984 - CDS
X Governo (Cavaco Silva)
02/04/1987 - PRD
XI Governo (Cavaco Silva)
19/10/1989 - PS
20/10/1989 - CDS
XII Governo (Cavaco Silva)
20/10/1984 - CDS
26/01/1995 - PCP
XIV Governo (António Guterres)
05/07/2000 - CDS
20/09/2000 - PSD
30/05/2001 – BE
XV Governo (Durão Barroso)
26/03/2003 - PS
26/03/2003 - PCP
26/03/2003 - BE
26/03/2003 - PEV
XVII Governo (José Sócrates)
16/01/2008 - BE
08/05/2008 - PCP
05/06/2008 - CDS
17/06/2009 - CDS
21/05/2010 - PCP
XVIII Governo (José Sócrates)
10/03/2011 - BE
XIX Governo (Pedro Passos Coelho)
25/06/2012 - PCP
04/10/2012 - BE
04/10/2012 - PCP
03/04/2013 - PS
18/07/2013 - PEV
30/05/2014 – PCP
XX Governo (António Costa)
24/10/2017- CDS
20/02/2019 - CDS
Avaliação do Polígrafo: