Fernando Alexandre esteve na CNN Portugal esta quinta-feira para uma entrevista onde abordou alguns dos planos para o ano letivo de 2026/2027 e considerou que, apesar das falhas, o método de correção das provas finais adotado este verão mostrou resultados, visto que cerca de 20.000 alunos “tiveram a nota vírgula quatro”. Ou seja, a sua classificação não permitiu o arredondamento por excesso (0.4, 1.4, 2.4… etc.).
“Ao contrário do que acontecia noutros anos, tivemos cerca de 20 mil alunos que tiveram a nota ‘vírgula quatro’. Nos anos anteriores, a nota ‘vírgula quatro’ quase não existia.”
Será verdade?
A 28 de julho, o ministro da Educação anunciou existirem cerca de 20.000 notas que ficaram a uma décima do valor imediatamente superior (depois do arredondamento). Além disso, pelo menos 2.400 alunos receberam a classificação 9,4, ficando a uma décima da nota positiva. Refira-se que, tanto o ministro como a tutela, falam sempre de provas ou notas terminadas em 0,4 e não de 20 mil alunos distintos, já que o mesmo estudante realiza vários exames e pode, por isso, contribuir com mais do que uma dessas classificações. Similarmente, foram contabilizados “mais de 20.000 pedidos de reapreciações” de provas, um número mais de três vezes superior aos 6.200 pedidos registados no ano anterior.
Divulgadas pela Direção-Geral da Educação, as bases de dados dos exames finais nacionais do ensino secundário de 2024, 2023 e 2022 revelam que o número de estudantes que ficaram a uma décima de obter uma classificação mais elevada foi cerca de metade do verificado em 2026. Um total de 10.948 provas em 2024, 9.790 em 2023 e, por último, 10.373 em 2022. Estes valores contrariam, no entanto, a ideia de que a nota “vírgula quatro quase não existia” nos anos anteriores: uma redução para metade está longe de equivaler ao desaparecimento do fenómeno, que já era recorrente antes da digitalização das provas, apenas em menor escala.
O novo método de correção, além de digital, implica que os professores apenas classificam um exercício de cada prova a que têm acesso. O ministro considera “evidente” que, desta forma, as notas atribuídas aos estudantes são mais rigorosas pois é apenas somada a cotação individual de cada exercício. Assim, evitam-se cenários em que o professor eleva uma classificação de 9,4 para 9,5 de forma a permitir a aprovação da disciplina, algo que o próprio ministro admite ter feito durante a sua carreira como docente.
De facto, os dados apontam para que esse seja o caso. Em 2022, 3.923 alunos conseguiram aprovação nas suas respetivas disciplinas com uma classificação de 9,5 valores, enquanto apenas 177 foram impedidos de prosseguir os seus estudos por apenas uma décima (9,4).
“No ano passado não tínhamos praticamente nenhuma nota entre os 9 e os 9,5 valores, porque era um professor só a corrigir os exames. Agora, como somamos as várias respostas que compõem o exame e cada classificador faz a classificação sem ter a visão global do exame, o que resulta numa avaliação mais objetiva”, explicou o ministro em julho.
Assim, é verdade que cerca de 20 mil provas terminaram este ano em 0,4 valores e que 2.400 alunos ficaram a uma décima da aprovação (9,4). Mas a afirmação do ministro de que a nota “vírgula quatro quase não existia” nos anos anteriores é excessiva: os dados da própria Direção-Geral da Educação mostram que o fenómeno já afetava entre 9.790 e 10.948 alunos por ano entre 2022 e 2024, cerca de metade do valor de 2026.
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