Os dados são os mesmos, mas as interpretações variam. O Polígrafo questionou epidemiologistas no sentido de identificar os efeitos concretos da aplicação de limitações nas escolas, restringindo o ensino a aulas online, num formato há muito contestado por pais e educadores. Importa, ainda assim, começar por analisar a evolução e os gráficos que mostram como Portugal jogou com os três níveis de restrições definidos pelo portal de estatísticas "Our World In Data", da Universidade de Oxford. A saber: "nível 1 - medidas recomendadas"; "nível 2 - medidas compulsórias (em alguns níveis)"; "nível 3 - medidas compulsórias (a todos os níveis)".

O gráfico seguinte representa os países da União Europeia (UE) que adotaram restrições (nível 1, 2 e 3) nas escolas durante mais dias, desde o início da pandemia. A Bulgária lidera o ranking com 438 dias, até ao dia 8 de março deste ano, último dia com dados disponíveis aquando desta análise. Desses, apenas 44 dizem respeito ao nível 1 de restrições. Na maior parte dos dias, 252, as escolas búlgaras estiveram sob restrições do nível 2. 

Em Portugal, que ocupa o quinto lugar desta lista, as escolas estiveram condicionadas por algum tipo de restrição durante 366 dias, 137 dos quais correspondentes ao nível 1; 106 ao nível 2; e 123 ao nível 3. É este último nível que se tem verificado nos últimos dias, com as escolas e universidades totalmente fechadas, consequência do "estado de emergência" em vigor.

Quando atentamos apenas nos dias em que os países adotaram os dois níveis mais condicionantes, o ranking altera-se. A soma dos dias em que as escolas adotaram medidas compulsórias, quer parcial ou completamente, atira Portugal para a 15ª posição, com 229 dias sob restrições dos níveis 2 e 3. No topo permanece a Bulgária, com 394 dias, seguida pela Roménia, com 363, e pela Itália, onde o cenário foi de grande preocupação, com 341 dias. Voltamos a reforçar que esta contagem abrange os países da UE e encerra-se no dia 8 de março deste ano, último dia com dados disponíveis, pelo que, à data e após a publicação deste artigo, os dias com restrições continuam a somar-se aos aqui indigitados.

Esta interpretação é importante, uma vez que considera os períodos mais críticos desde o início da pandemia, mas deixa por aprofundar um número fulcral para a nossa análise: o total de dias em que cada país se viu obrigado a adotar medidas do nível 3, o mais restritivo junto dos alunos e das escolas. Se organizarmos os países de acordo com essa soma, obtemos o gráfico infra.

A Itália garante o primeiro lugar naquela que é a lista das restrições mais apertadas. A grande maioria das regiões italianas optou por manter as escolas (à exceção das primárias) fechadas e as aulas em regime virtual, à semelhança de Portugal. Seguida pela Roménia e pela França e, finalmente, Portugal, que figura na 13ª posição com 123 dias de condicionamento do nível 3 nas escolas. 

Feitas as contas, resta saber qual é o impacto destas medidas no que toca a novos casos confirmados de Covid-19. O Polígrafo cruzou as informações e mostra-lhe um conjunto de slides, apresentados pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), numa reunião do Infarmed a 9 de fevereiro, que ajudam a compreender a relação que se estabelece entre as duas variáveis de que temos vindo a falar.

Ao Polígrafo, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes forneceu um conjunto de considerações e análises sobre cada um destes diapositivos. "Com estes slides mostrámos a diferença entre o impacto (fraco) das medidas de 14 e 15 de janeiro e o impacto (muito forte) das medidas de 22 de janeiro", explica, recuperando uma expressão que utilizou na reunião do Infarmed: "Isto é a diferença entre levantar o pé do acelerador e puxar o travão de mão".

A estabilização observada nas taxas de incidência nos dias 24 e 25 de janeiro corresponde a uma "estabilização no número de contágios ocorrida cerca de 16/19 de janeiro (oito dias antes)", identifica Carmo Gomes. 

Ainda assim, a descida mais pronunciada das taxas, observada a partir de 30 de janeiro, "deve-se ao confinamento decretado após 22 de janeiro (8 dias antes) com o encerramento das escolas", sublinha. "Sem estas medidas mais duras, o pico de casos teria sido mais longo, teria ido mais alto e levaria mais tempo a descer, com consequências em termos de morbilidade e mortalidade".

Em formato de nota, Carmo Gomes explica que todas as datas se referem ao momento em que ocorre o início dos sintomas: "Existe um atraso relativamente à data dos contágios, os quais terão ocorrido 7 a 8 dias antes de qualquer data aqui considerada".

Quanto a este segundo slide, estamos perante taxas de variação da incidência que medem a velocidade com que os novos casos estão a aparecer. "Se o slide anterior era o conta-quilómetros, este é o velocímetro", explica Carmo Gomes. Analisando o gráfico conseguimos verificar uma estagnação e até um aumento da velocidade de crescimento de incidência em algumas idades, a partir do dia 15 de janeiro.

Este aumento traduz contágios que terão ocorrido entre os dias 7 e 15 de janeiro. As idades mais jovens - dos 6 aos 12 e dos 13 a 17 anos de idade - têm uma variação mais rápida. A partir de 22 de janeiro verificamos uma descida suave, mas as taxas mantêm-se positivas. Para Carmo Gomes, a descida abrupta para valores negativos a partir de 28 de janeiro ocorre "em virtude do travão a fundo das medidas tomadas no dia 22 de janeiro, com o ensino suspenso".

Em baixo, o slide explicativo do que aconteceu no intervalo de 22 de janeiro a 3 de fevereiro, em que a primeira data corresponde ao momento em que são fechadas as escolas e a segunda corresponde ao cenário 12 dias depois. Observando pontualmente a variação da incidência acumulada, verificamos diferenças significativas no período em causa.

Em declarações ao Polígrafo, Carlos Antunes, também da FCUL, aponta no mesmo sentido. "Recuando sete a oito dias a partir de 29-30 de janeiro, encontramos a força motriz que impulsionou esta dinâmica de aumento da desaceleração da incidência. Dado que de 22 a 29 de janeiro essa desaceleração era inferior, atribuímos ao fecho das escolas, não pela origem dos contágios, a razão de tal descida abrupta que se verificou entre 28 de janeiro e 8 de fevereiro, reduzindo-se a incidência dos 10 mil casos para os 3 mil casos", afirma o docente.

Antunes alerta, ainda assim, para o facto de o fecho das escolas não ser "responsável pelo pico da curva epidémica, dado que ele ocorre entre dia 18 e dia 22, mas antes pela aceleração da descida, ou dito de forma diferente, pela forte desaceleração (aumento do ritmo de descida) da incidência". Assim sendo, segundo o docente, "o fecho das escolas permitiu a redução significativa da mobilidade e um aumento do índice de confinamento. E isso permitiu reduzir a reprodução da infeção". No entanto, "não se pode concluir essa relação de causa-efeito, porque ninguém consegue determinar exactamente onde se dão mais de 85% dos contágios".

Esta é, aparentemente, uma de várias formas de olhar para os dados. Numa carta enviada ao primeiro-ministro, ao ministro da Educação, à ministra da Saúde, aos restantes membros do Governo e ao Presidente da República, uma centena de médicos, professores, pais e investigadores propuseram uma outra e dizem ser possível manter as escolas abertas com ensino presencial com as devidas precauções, medida que vemos tomada na primeira fase de desconfinamento anunciada no dia 11 de março.

O grupo de signatários, do qual fazem parte o virologista Pedro Simas, o epidemiologista Henrique Barros e ainda Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, lembra que um largo conjunto de investigações "mostrou que as escolas não são contextos relevantes de infeção e, durante o primeiro período, as medidas sanitárias em vigor nas escolas provaram que o curso da epidemia foi independente de as escolas estarem abertas". 

O Polígrafo entrou em contacto com Elisabete Ramos que começou por dizer que "não é possível avaliar" o impacto do fecho das escolas no desacelaramento dos contágios. A primeira mulher presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia assume que esse "foi um dos fatores que contribuiu para acelerar a velocidade de descida, mas não foi essa medida que permitiu inverter a curva de incidência dos casos e não é possível avaliar o seu efeito isoladamente".  

Tendo em conta a ocorrência de novos casos e considerando que "desde que a medida é tomada até que seja expectável o seu impacto, decorrem cerca de 12 dias", a epidemiologista aponta dois pontos cruciais para compreender os dados: "Considerando os dados nacionais, o pico da onda ocorre a 28 de janeiro (12.890 casos) e, antes do encerramento das escolas, a velocidade de decréscimo do número de casos notificados (média a sete dias) era de 3% e passa para 11% após o encerramento das escolas. Na região Norte, em que a terceira onda ocorreu ligeiramente mais cedo, verificou-se que o pico da onda ocorre a 24 de janeiro (4.019 casos) e, antes do encerramento das escolas, a velocidade de decréscimo do número de casos notificados (média a sete dias) era de 6%, esta velocidade de decréscimo duplica após o encerramento", afirma.

Ainda assim, Elisabete Ramos aponta para a necessidade de ter em conta que "não é possível avaliar com precisão o efeito de uma medida isoladamente quando ela integra um conjunto de medidas que foram sendo tomadas num curto espaço de tempo (medidas de contenção a 15 de janeiro e fecho das escolas a 22 de janeiro). Assim, as medidas posteriores estão condicionadas pelos resultados das medidas que as antecederam, podendo refletir um efeito cumulativo e não o seu efeito isolado".

Mais, Ramos dá conta de dados recolhidos no âmbito do projeto "Diários de uma Pandemia", do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC-TEC), que "mostram que a ocorrência de infeção pelo vírus da Covid-19, ao longo do último ano, foi semelhante nos agregados familiares com e sem crianças com menos de 10 anos (11,7% e 10,4%, respetivamente). O que suporta que as escolas, por si só, não têm um papel determinante na disseminação da doença".

Em resposta a um e-mail do Polígrafo, Henrique Barros, especialista em saúde pública e epidemiologista do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, afirma que, sem "mais a acrescentar", subscreve a opinião de Elisabete Ramos, nos termos em que a epidemiologista abordou a questão. O Polígrafo também contactou Pedro Simas e Baltazar Nunes, mas não obteve resposta em tempo útil para a publicação deste artigo.

Dadas as divergências apresentadas pelos diferentes epidemiologistas, concluímos que a resposta à questão em análise é imprecisa, carecendo de dados aprofundados que discriminem o impacto singular de cada medida de prevenção tomada contra a Covid-19.

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Avaliação do Polígrafo:

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