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Faixa de Gaza. Plano israelita prevê “enviar os refugiados sobreviventes para a Europa e América do Norte”?

Guerra Israel-Hamas
O que está em causa?
Uma alegada “fuga de informação” terá levado à divulgação de um alegado plano israelita para “limpar etnicamente a população palestina e enviar os refugiados sobreviventes para a Europa e América do Norte”. Mas será que é mesmo esse o objetivo do Governo de Benjamin Netanyahu?

“Um documento vazado do Ministério da Inteligência de Israel revela que o objetivo da guerra com Gaza é limpar etnicamente a população palestina e enviar os refugiados sobreviventes para a Europa e América do Norte.”

Eis a informação que consta de uma publicação partilhada na rede social Facebook, a 1 de novembro, dando conta de que uma “fuga de informação” revelou que o “plano do governo israelita”, com a sua intervenção militar na Faixa de Gaza, passa por “expulsar todos os palestinianos e enviá-los para os EUA e Europa”.

O “post” remete para uma alegada notícia, partilhada no site “The People’s Voice” – que, por sua vez, cita um artigo publicado no site israelita “+972 Magazine” -, fazendo referência a um tal “documento de 10 páginas, datado de 13 de outubro de 2023”, onde esse plano estaria detalhado. Mas será mesmo verdade que, como alega a publicação aqui analisada, o mesmo aponta o objetivo de “enviar os refugiados sobreviventes para a Europa e América do Norte”, na sequência das investidas israelitas na Faixa de Gaza?

Não. Este relatório do Ministério da Inteligência de Israel foi citado pela Associated Press no passado dia 31 de outubro, depois de ter sido primeiramente divulgado pelo “website” local “Sicha Mekomit”. Aí esclarece-se que a entidade apresentou, por essa via, três alternativas “para efetuar uma mudança significativa na realidade civil na Faixa de Gaza, à luz dos crimes do Hamas que levaram à guerra ‘Espada de Ferro’”.

Uma das opções apresentadas – aquela a que aqui se faz referência, apontada como a mais “desejável” para o Estado israelita – propunha a deslocação da população civil de Gaza para a região norte da península egípcia do Sinai – e não “para a Europa e América do Norte”, como se alega na publicação.

Aquilo que, inicialmente, seriam acampamentos de tendas deveriam, num momento posterior, evoluir para edificações permanentes, onde estas pessoas pudessem ficar alojadas – de modo a garantir, na ótica dos autores, a “segurança” de Israel. De notar que, no documento, não existem esclarecimentos sobre o que aconteceria a Gaza após a evacuação.

Porém, o documento não determinava que o Egito seria a última paragem destes refugiados  – abordando-se a possibilidade de países como a Turquia, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos apoiarem o plano, quer financeiramente, quer no acolhimento destes indivíduos, até mesmo a longo prazo. No que toca ao “mundo ocidental”, apenas se faz referência às práticas de imigração “permissivas” do Canadá, tornando-o como uma potencial hipótese para a reinstalação destes palestinianos. Porém, para além de ser apenas uma opção, não seria o intuito principal deste plano.

Importa, além do mais, notar que o Ministério que apresentou esta proposta detém apenas competências de investigação, não estando capacitado para a definição de políticas.

Perante estes factos, resta-nos concluir que estamos perante uma declaração predominantemente falsa.

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Avaliação do Polígrafo:

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