O facto: A 11 de Maio de 1960após anos de investigação e tentativas frustradas de vigilância, um grupo de agentes da Mossad (os serviços secretos israelitas) e da Shin Bet (a Shabak, agência de segurança de Israel) capturou o antigo oficial das SS Adolf Eichmann perto da casa onde este vivia, sob falsa identidade, na rua Garibaldi, em San Fernando, zona industrial a 20 quilómetros de Bueno Aires, Argentina. Após o principal responsável pela organização logística do Holocausto ser evacuado do país, seria julgado em Israel durante oito meses, condenado à morte e enforcado a 31 de Maio de 1962. Durante o julgamento, Heichmann declinou sempre responsabilidades na morte de seis milhões de judeus. Apenas reconheceu ter organizado o seu transporte até campos de concentração, justificando-se com o facto de "ter de cumprir as ordens" para o efeito.

O filme: "Operação Final" é a história da operação secreta, concebida pela Mossad e pela Shin Bet em 1960 com o beneplácito do primeiro-ministro israelita Ben Gurion, da captura do antigo SS obergruppenfuhrer Otto Adolf Eichmann, o último dos grandes criminosos de guerra nazis que escapara ao Julgamento de Nuremberga e à justiça dos Aliados após a Segunda Guerra Mundial. O plano, invulgar mesmo para a Mossad, foi estabelecido pelo então director dos serviços secretos israelitas, Isser Arel (o actor israelita Lior Raz) e liderado na Argentina pelo agente Rafi Eitan (o comediante Nick Kroll), mas o filme, baseado no relato biográfico de outro operacional da Mossad que participou na operação, Peter Malkin (Oscar Isaac), - "Eichmann in My Hands: A First-Person Account By The Israeli Agent Who Captured Hitler's Chief Executioner" -, toma Malkin como protagonista da intriga, dando-lhe todo o destaque na captura e no interrogatório, ainda em Buenos Aires, que levaria Eichmann a aceitar por escrito o seu julgamento em Israel.

Eichmann - após telefilmes onde fora interpretado por actores como Robert Duvall ou Stanley Tucci - é aqui retratado por um Ben Kingsley ("Gandhi", "A Noite da Vingança") de 74 anos - Eichmann tinha 54 anos em 1960. Dirigida por Chris Weitz ("Era Uma Vez Um Rapaz", "A Saga Twilight: Boa Nova"), é uma produção norte-americana onde surge um actor português, Pepê Rapazote, numa grandiloquente - e fictícia - personagem secundária, o fascista argentino Carlos Fuldner.

operação final

Com 24 milhões de dólares de orçamento, "Operação Final" estreou a 29 de Agosto nos EUA, obtendo até 28 de Outubro 17,6 milhões de dólares na bilheteira doméstica. Produzido pela MGM, os direitos de distribuição para o resto do mundo (incluindo Portugal) pertencem à Netflix, plataforma streaming onde está disponível desde 3 de Outubro.

  • Ao contrário do que o filme sugere, Adolf Eichmann não foi o principal arquitecto da "Solução Final".

Na Conferência de Wannsee, arredores de Berlim, a 20 de Janeiro de 1942, um conjunto de oficiais de alta patente (incluindo Adolf Eichmann) e figuras do regime nazi reuniu-se para determinar a melhor forma de executar a "Solução Final Para a Questão Judaica", o sistemático e optimizado transporte e extermínio de seis milhões de judeus espalhados por parte da Europa ocidental e de leste. Eichmann é indigitado como máximo responsável logístico da agregação e transporte das vítimas para guetos e campos de concentração, mas o plano foi concebido por Reinhard Heydrich, um dos mais frios e sangrentos representantes do regime - Hitler chamava-lhe "o homem com coração de ferro" - que solicitou e presidiu à Conferência de Wannsee.

Apesar do rigoroso secretismo, e de Heydrich ter ordenado que as actas e notas do encontro fossem destruídas, houve uma cópia que sobreviveu, dando origem a ficções nela baseadas como o excelente telefime de Frank Pierson, "Conspiracy", produzido pelo HBO em 2001, ou o rigoroso docudrama televisivo alemão "Die Wannseekonferenz", de 1984. O "arquitecto da Solução Final" foi, portanto, Heydrich - assassinado em Praga por um grupo de agentes checoslovacos, treinados por britânicos, em Maio de 1942, na que ficou conhecida por "Operação Antropóide" -, embora Heichmann organizasse  e superintendesse depois todas as operações de arresto de bens, deportação e genocídio de judeus na Europa ocupada, sob as ordens de Heinrich Himmler.

  • A forma como, no filme, a Mossad apura a identidade e localiza o paradeiro de Eichmann é fiel aos factos.

Após alguns esforços iniciais do lendário "caçador de nazis" Simon Wiesenthal, as autoridades israelitas tiveram um primeiro conhecimento do possível paradeiro de Adolf Eichmann após a denúncia de Lothar Hermann (interpretado por Robert Strauss, actor celebrizado nos anos 70 graças à série televisiva "Homem Rico, Homem Pobre"), um advogado judeu exilado em Buenos Aires que sobrevivera a Dachau, onde perdeu um olho. Lothar desconfiou que Ricardo Klement - a falsa identidade que Eichmann adoptara na Argentina - poderia ser o ex-oficial nazi após a sua filha, Sylvia (Haley Lu Richardson), lhe contar que o namorado, Klaus (Joe Alwyn), filho de Klement, se gabava das proezas nazis do pai durante a Segunda Guerra, chamando-lhe "Eichmann". Depois de a filha conhecer pessoalmente Klement, Hermann ficou convencido de que aquele era Eichmann.

Talvez por contenção dramática, o filme não menciona as numerosas cartas - citadas p. ex. em artigos contemporâneos do diário argentino "Clarín" - que Hermann enviou às autoridades argentinas, mas reproduz o contacto do procurador germânico Fritz Bauer (Rainer Reiners), após ser informado por Hermann, com a Mossad quanto às fortes probabilidades de Eichmann ser Klement, o que levaria mais tarde o director dos serviços secretos israelitas a iniciar a vigilância a Klement/Eichmann.

  • O líder da equipa da Mossad que levou a cabo a operação não estava determinado desde o início a capturar Eichmann; e, ao contrário do descrito no filme, o médico da equipa era um homem, não uma mulher.

Durante o período da Guerra Fria, época em que decorre a acção de "Operação Final", a prioridade da Mossad era, não apanhar nazis, mas controlar e monitorizar o fluxo de imigrantes que iam chegando a Israel, verificando se alguns seriam criminosos ou espiões. Porém, no filme, Rafi Eitan, líder da futura missão, sublinha desde o início a importância de se capturar Eichmann.

A personagem da médica que integra a operação, Drª Hanna Elian (a actriz e realizadora francesa Mélanie Laurent, de "Sacanas Sem Lei") é fictícia, destinando-se a acrescentar um subplot romântico a um thriller de mecânica totalmente masculina. Houve uma agente feminina, Rosa, que participou de forma indirecta no conjunto da operação, mencionada por Peter Malkin em "Eichmann in My Hands", mas o médico no terreno, que sedou Eichmann de forma a que este pudesse ser transportado e embarcado no avião para Israel, era o doutor Yonah Elian.

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  • A forma como Eichmann é raptado, mantido em cativeiro e interrogado ainda na Argentina segue o essencial dos factos.

No filme como na realidade, Adolf Eichmann foi capturado por uma equipa de agentes da Shin Bet liderado por operacionais da Mossad na noite chuvosa de 11 de Maio de 1960, junto a casa em San Fernando, zona industrial dos arredores de Buenos Aires. Quem o agarrou na rua foi mesmo Peter Malkin, interpelando-o com a expressão "Momentito, señor" e prendendo-o pela boca e pescoço com as mãos enluvadas, porque teve "repulsa de mexer na boca e saliva de um homem responsável pela morte de milhões". O nazi foi escondido no chão do carro com um cobertor, sedado, transportado até uma casa segura nos limites da capital argentina e aí mantido durante vários dias, sendo interrogado até autorizar por escrito a sua detenção e julgamento. Também como vemos no filme, foi Malkin quem o convenceu a assinar o documento. Malkin descreve Eichmann num outro livro da sua autoria sobre a história da missão, "Argentina Journal" (2002, The Israel Museum, Jerusalém): "Parecia um homem, não um monstro; o problema não é como um monstro pode fazer o que ele fez, mas como um homem pôde fazê-lo".

  • No entanto, os obstáculos à manutenção de Eichmann, ainda em Buenos Aires, à guarda da Mossad, bem como as dificuldades de saída da Argentina, são inventados.

Toda a operação verídica decorreu com calma e segurança, de acordo com o planeado. Para efeitos de suspense e tensão dramática, os obstáculos foram criados ou exagerados no filme: se é verdade que Karl, o filho de Eichmann, conseguiu recrutar cerca de 300 simpatizantes fascistas locais para o ajudarem a encontrar o pai, parte do grupo passou uma semana a procurá-lo em hospitais, morgues e bairros de Buenos Aires, acabando por descobrir com apenas meia-hora de atraso o voo em que Eichmann seria levado para fora do país - mais tarde, o chefe da equipa de agentes, Rafi Eitan, comentaria no programa de reportagens de investigação "Uvda", do segundo canal israelita, que aquela tinha sido "umas das missões mais fáceis em que estive envolvido".

Na longa-metragem, parte do grupo de Karl Eichmann consegue descobrir a casa onde a equipa de agentes israelitas mantém o pai em cativeiro, obrigando a equipa de agentes a fugir à pressa; já no aeroporto, os agentes conseguem transpor o check-point- fingindo que um sedado Eichmann era comissário de bordo da EL AL, tal como aconteceu de facto em 1960 - e embarcar sem grandes dificuldades no avião fretado para o efeito, descolando suavemente. No filme, o avião é impedido de descolar, sendo necessário o próprio Peter Malkin entregar o plano e autorização de voo na torre de controlo, sacrificando-se pela missão e ficando em terra, segundos antes de uma mole de fascistas enfurecidos chegar ao aeroporto, quase anulando a descolagem (a realidade, esses simpatizantes fascistas nunca apareceram).

Peter Malkin nem sequer integrou a unidade de seis operacionais que levou Eichmann ao aeroporto, mantendo-se em solo argentino até sair do país de comboio, rumo a Santiago do Chile, de onde apanharia um avião para Israel.

operação final

Algumas curiosidades:

  1.  A navalha que Peter Malkin usa para barbear Eichmann no filme tem inscrita a marca "Solingen". Solingen é uma cidade da Renânia do Norte-Vestfália conhecida pela manufactura de espadas, facas, tesouras e navalhas de qualidade. É também o local de nascimento de Eichmann.
  2. Antes do Adolf Eichmann de "Operação Final", Ben Kingsley interpretou três sobreviventes do Holocausto: Simon Wiesenthal em "Murderers Among Us: The Simon Wiesenthal Story" (1989); Itzhak Stern em "A Lista de Schindler" (1993); Otto Frank na minissérie televisiva "Anne Frank: a História da Sua Vida" (2001).
  3. Quando Sylvia Hermann e Klaus Eichmann se encontram no cinema, o filme projectado no ecrã é "Imitação da Vida" (1959), de Douglas Sirk, vendo-se uma cena protagonizada por Troy Donahue e Susan Kohner. Kohner é mãe de Chris Weitz, o realizador de "Operação Final".

Pelas razões apresentadas, o filme Operação Final é...

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