As investigações científicas são muitas vezes utilizadas para suportar falsas informações difundidas online. Neste caso, dois estudos são citados num texto para suportar a existência de uma relação entre o consumo de elementos químicos e o aumento da homossexualidade na sociedade americana – principalmente entre os cidadãos afro-americanos.

“Não é novidade que existe um número crescente de homossexuais na nossa sociedade atual”, começa por afirmar o texto. O autor, que não é identificado, defende ainda que existe uma pressão nas televisões, filmes e escolas para que as crianças afro-americanas se tornem homossexuais.

gay

No caso de Portugal, o número de casamentos entre pessoas do mesmo género tem vindo aumentar, tendo o ano de 2017 batido novo recorde: 523 celebrações. Segundo dados disponibilizados pela plataforma Pordata, os casamentos heterossexuais continuam a ser predominantes em Portugal, correspondendo a 98,4% dos matrimónios celebrados no mesmo ano.

Mas voltando ao texto: a plataforma de fact-checking “Lead Stories” analisou os dois artigos que são citados e, ao mesmo tempo, deturpados no texto e nenhum deles diz respeito à homossexualidade dos seres humanos.

O primeiro estudo, publicado em 2019 pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, relata a investigação do impacto das substâncias hormonais existentes em produtos cosméticos na antecipação da puberdade, quer nos rapazes quer nas raparigas. Durante a investigação foram acompanhadas, desde o nascimento até à puberdade, 338 crianças cujas mães acusavam a presença das referidas hormonas na urina durante a gravidez.

As conclusões do estudo liderado por Harley K.G. indicam que a utilização de determinadas substâncias durante o período de gestação pode antecipar os efeitos da puberdade nas raparigas – tais como o crescimento de pelos púbicos, o aparecimento da primeira menstruação ou o desenvolvimento precoce do das glândulas mamárias. Nos rapazes o único efeito identificado no decorrer do estudo foi o “desenvolvimento precoce dos genitais [associado] com a substância propylparaben”.

Em nenhum momento do artigo é referida a orientação sexual de alguma das crianças que participaram no estudo ou sequer a existência de uma relação entre o consumo das substâncias hormonais e a homossexualidade.

gay

O segundo artigo citado no texto diz respeito ao impacto do herbicida atrazina na capacidade reprodutora dos anfíbios. O texto, publicado em 2010, afirma que a substância atrazina funciona como desmasculinizador para os sapos da espécie Xenopus laevis, chegando a transformar machos em fêmeas, com capacidade de pôr ovos.

A atrazina está presente na maior parte dos pesticidas utilizados na agricultura, nos Estados Unidos. Esta substância contamina tanto os solos como as reservas de água. Desta forma, segundo o autor do texto inicial, os humanos, ao consumirem alimentos e água contaminados, estão expostos à atrazina, que terá assim efeitos de feminização no sexo masculino.

Porém, no estudo liderado por Tyrone B. Hayes não existe qualquer referência ao impacto da substância nos seres humanos, ou em qualquer outro mamífero, uma vez que a investigação foi conduzida apenas em anfíbios.

gay

A substância atrazina é considerada perigosa pela União Europeia e a sua utilização destina-se apenas à produção industrial, sendo necessária uma autorização prévia. “Segundo a Classificação e Rotulagem Harmonizadas (CLP00) aprovada pela União Europeia, esta substância é muito tóxica para a vida aquática, muito tóxica para a vida aquática com efeitos prolongados, pode causar danos ao organismo através de prolongadas e repetidas exposições e pode causar reações alérgicas na pele”, lê-se no portal da Agência Europeia de Químicos.

No caso de Portugal, não existe qualquer referência à utilização de atrazina quer na produção industrial quer em produtos importados. No entanto, os Estados Unidos são um dos principais parceiros de Portugal no que toca a importações. Segundo dados do Observatório da Complexidade Económica, Portugal importou em 2017 um total de 1.010 milhões de dólares em produtos (cerca de 902 milhões de euros), sendo apenas 4,57% diz respeito a produtos alimentares – o equivalente a 46,2 milhões de dólares (41,3 milhões de euros). O resíduo de amido e a ração animal são os principais alimentos importados.

Avaliação do Polígrafo: 

Siga-nos na sua rede favorita.
Falso
International Fact-Checking Network